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Natal Actual

O cachopinho tam fermoso

Tanto a árvore de Natal como o Pai Natal, correspondem a uma tradição nórdica que alastrou. Terá sido Eça de Queirós quem, entre nós, primeiro falou do Pai Natal, nas «Cartas de Inglaterra».

A tradição meridional, nomeadamente a portuguesa, tem mais a ver com o presépio, o Menino Jesus, os pastores, o alvoroço das gentes a dirigirem-se a Belém com as suas ofertas, a Missa do Galo, a ceia... Em volta desta tradição, desenvolveram-se alguns aspectos mais específicos, como os cânticos, os presentes no sapatinho, as luminárias domésticas, as convivialidades natalícias, a tradição inigualável dos cozinhados e das doçarias, com as suas variações, de região para região: do bacalhau (mais a pescada e o polvo cozidos, no Alto Minho) às filhós e às rabanadas, do peru recheado à roupa-velha. Nas artes plásticas, a tradição perdeu-se. Já não há sucessores condignos do Grão-Vasco ou de Machado de Castro. Mas na literatura não é assim. Tanto o conto de Natal como a poesia de Natal vêm até aos nossos dias. Carlos Drummond de Andrade reagia com impaciência à banalização do tema: «Menino, peço-te a graça/ de não fazer mais poema/ de Natal./ Um, dois ou três, inda passa.../ Industrializar o tema,/ eis o mal». E a verdade é que alguns dos textos poéticos mais tocantes e perturbantes da nossa literatura têm a ver com a tradição do Natal, de Gil Vicente a Torga, Nemésio, Sena, David, Couto Viana… Recordemos apenas, do primeiro, «o cachopinho/ tam fermoso e sesudinho/ filho de Nossa Senhora».