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Carta a Madame Tastet

Ando há muitos anos para escrever a Madame Tastet. Quando era nova e pensava nisso, parecia-me sempre injusto não ter voltado a casa dela para lhe agradecer em pessoa. Mas agora fica feito, em letra de forma. Madame Tastet era da Provença e vivia em Alvalade. Eu vinha de Oeiras, por montes e vales, duas vezes por semana, aprender Francês. Tinha dezasseis anos.

Madame Tastet ensinou-me a Literatura Francesa toda com o sotaque carregado de provençal. À terça-feira dava-me um livro, à quinta falávamos sobre esse livro e ela emprestava-me outro, ou mais dois, que eu começava a ler no comboio para casa. Fomos despejando as estantes. Ela ministrava muito pouca Gramática, corrigia-me só a fala e fazia-me escrever resumos. Da sala em que trabalhávamos partia um corredor. Se Madame Tastet se levantava e abria uma porta, ouvíamos pipilar uns passarinhos. Vinha a noite. Eu perdia-a de vista e escrevia o meu resumo. Ela dava-lhes de comer, falava com eles, fechava a porta. Abria nova porta para falar a uma mãe que tinha escondida noutra sala e vinha sentar-se à mesa, sempre vestida em coisas de lã que já tinham visto muitos alunos e onde luziam os pêlos de um gato. Da cozinha aparecia entretanto o gato dos pêlos. Se abria outra porta, saía ou entrava um cão pequeno. E nós estávamos na sala, a conversar, no meio de um mundo animado de versos e de bichos. Através de Madame Tastet agradeço aos meus professores. A todos os que me ofereceram o seu tempo, e o seu saber, para que eu me pudesse guiar no meu.