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Expresso

Natal Actual

Alguma contrafacção

Esta é a história de uma desgraçada que volta à cidade natal todos os santos anos para rever a irmã viúva e o sobrinho. E, trémula, depõe aos pés da árvore a sua prenda para o menino.

Cada ano a irmã está mais intratável, cada ano ela tem mais dificuldade em manter a fera amansada. Passa-se isto em Condeixa, para os lados de Conímbriga. A desgraçada elogia sempre tudo e mima muito o menino (que já está um matulão de barba e bigode). Todos os anos é um inferno escolher uma prenda barata e boa e todos os anos ela se aventura na feira de Carcavelos com o coração aos saltos e a perna bamba; uma feira antes do Natal é um acontecimento de grande violência. Ela inspira fundo e atira-se para a «melée» dessa gente que refocila nos trapos, mas é logo rejeitada para a periferia por cotoveladas de mulheres mais fortes e experientes. Ela vai zumbindo à volta, procurando uma aberta, e arrebanha enfim um blusão de marca, aconchega-o ao peito e paga-o, muito penhorada. Vai com o blusão ao centro comercial, onde fica a loja verdadeira do blusão de contrafacção, e consegue, não sem esforço e sentido da peripécia, um saco verdadeiro da loja verdadeira. Inclui no saco verdadeiro o blusão falso e alguma culpabilidade. Por natalícia coincidência, a irmã compra num centro comercial de Coimbra um blusão igual, da mesma marca. Surpresa e intriga no «facies» de Ruben (o sobrinho) ao encontrar no sapatinho dois sacos iguais e, pouco depois, dois blusões iguais. Angústia de Augusta (a desgraçada). Fúria de Sílvia (a irmã). Após exame detalhado dos dois itens, Ruben declara que o pesponto em relevo do blusão comprado na feira faz dele um vencedor. É o blusão autêntico, embora roubado. E que a ausência do mesmo pesponto no blusão «verdadeiro» dado pela mãe faz dela uma bela otária. E ri-se a bom rir o Ruben, para grande mortificação de Augusta, que se vai conformando a um futuro de natais solitários.