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Expresso

Natal Actual

A mala

Ela abre o guarda-jóias. Por instantes não consegue desviar os olhos da bailarina, apesar de já lhe conhecer as voltas de cor. A bailarina rodopia e rodopia e rodopia ao som da música que se escangalha pelo quarto. O espelho do guarda-jóias reflecte os olhos dela e o corpo da bailarina. Desencontrados. Ver tem esse problema: nunca se consegue focar duas coisas ao mesmo tempo.

Sobre a cama, a mala aberta ainda por fazer. Vestidos, saias e blusas por todo o lado. Ela espalhada pelo quarto, alongando-se nos preparativos da viagem que vão fazer. Não irão para longe nem por muito tempo, mas ela quer lembrar-se para sempre de tudo o que esta viagem lhe trará. Por isso se demora. Parte-se tanto, viaja-se tão pouco.

Sem hesitar, ela retira do guarda-jóias o anel das ocasiões especiais. Os brilhantes cintilam ainda como no dia do casamento. Ela põe-no no dedo. Sente as arestas que lhe distraíram os nervos no primeiro dia em que deu aulas. Foi ele quem lho ofereceu. No quarto de hotel, os dois fugidos do mundo. Ela toca na pérola. Ao de leve. Como naquela noite. As mãos dele soltas pelo corpo dela. Os lábios em segredos que não foram guardados. Os corpos deles despidos sobre a cama. Apenas o presente dele no dedo dela. O redondo denso dos momentos eternos.

A bailarina amacia as suas rodas. A música esforça-se ainda num dedilhar entrecortado. Até que já nada rompe o silêncio.

O presente dele no dedo dela. Sobre a cama, a mala.

Não deveríamos chamar passados aos presentes?