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Expresso

Natal Actual

A luz artificial das lâmpadas

Este Natal vai ser diferente. Vamos dar pulseiras de ouro um ao outro e fantasiar que ainda nos amamos. Vamos cobrir a mesa com bolo-rei, broas de mel e rabanadas, enquanto sorrimos às crianças estonteadas que somos nós correndo à volta da mesma mesa. Ligar alto a televisão para não ouvirmos a chuva que cai na casa. No interior da nossa própria casa.

Este natal vamos descongelar um peru e enfiar-lhe no peito aberto pão, castanhas e as suas próprias vísceras (banhadas em Vinho do Porto, pois claro, para que não saibam a entranhas e o corpo de onde vieram as não rejeite, por impuras). E quando a gordura arder sobre a pele sem penas vamo-nos concentrar no cheiro para não pensarmos que na rua ao lado dorme, sobre um cartão, um outro corpo imerso em álcool. Este natal vamos de novo ser caridosos e beijar o pé do menino enquanto nos sentimos a melhor pessoa à face da Terra. Os lábios bem apertados para que não nos tomem por fracos capazes de entender que cada um tem os seus próprios pés e que só houve Um capaz de beijar sem escolher.

Este Natal vamos enrolar as pérolas à volta do pescoço e simular que exibimos o coração. Ou, para lá do condomínio, carregar o carro do hiper com coisas que não poderemos pagar mas cuja dívida será como um colar de pérolas em volta do pescoço.

Este Natal vamos ser humanos, voltar a fingir que nos interessa mais alguma coisa do que travar o avanço inexorável da nossa morte.