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Expresso

José Saramago (1922-2010)

O ano da morte de José Saramago

Saramago e o seu último grande amor, Pilar del Rio, em Lanzarote, há um ano

Rui Duarte Silva

O Nobel da Literatura, único de língua portuguesa a ter essa distinção, definia-se como operário da escrita. Morreu, ontem, na sua casa de Lanzarote, aos 87 anos de idade, com projectos em mãos.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Pode ser que um dia um escritor ainda sem nome se sinta tentado a escrever um livro com este título. Este é um ano em que estão a acontecer muitas coisas, é um ano histórico e da história, um ano implacável, um ano de princípios e de fins. E do fim físico de José Saramago, um fim que sempre achei que demoraria mais tempo a chegar. Há muitos anos fui a Madrid entrevistar o poeta Rafael Alberti, amigo de Lorca; e amigo de Saramago. Alberti ia nos noventa, agudo e certo, cheio de memória e vida. E ao comentar isto com um José Saramago bem mais jovem que Alberti, lembro-me de ele dizer que gostava de envelhecer assim, não direi centenário mas perto disso, sem perda nem separação. Uma espécie de física e feliz eternidade que não é a mesma coisa que a posteridade. E que é o que todos desejamos. Seguir em frente.

E ele seguiu em frente. Quando a Pilar me disse que não tinha autorização do médico para escrever e que não podia escrever pensei que isso era a última renúncia. Escrever era a vida dele.

Pegámo-nos um dia em discussão enovelada por causa de uma frase, uma daquelas frases à Saramago, ditas com lisura e certeza: escrever é como pintar uma parede. E eu, que alimentava românticas visões de escritas torturadas e epifanias ilustradas, recusei a definição. E ele insistindo: é como pintar uma parede, levanto-me, tomo o pequeno-almoço, vou trabalhar. Como um operário. Como um pintor de paredes. Método e disciplina. A conversa passava-se na casa de Lanzarote, com um sol eterno a bater no branco da casa e o mar ao fundo, uma fita de luz que encandeava. Pintar uma parede? Pintar uma parede, sorria ele piscando os olhos por trás dos óculos de aros grossos que usava nesse tempo. Nesse tempo ainda não escrevia num computador. Escrevia num ordenador de palavras. Dos primeiros que apareceram. Uma caixa acastanhada e enorme, um avatar electrónico da máquina de escrever. O José Saramago estava sempre nas novas tecnologias, tudo o que o ajudasse a escrever. Foi dos primeiros a viajar com um portátil, comprou o primeiro notebook, acabou a escrever num blogue. Pintando paredes com método e disciplina, muitas paredes. Uma obra. Só uma vez o ouvi conceder ao prazer, sem meter pelo meio a desculpa da arte, que serve os artistas menores. Disse ele que lhe dava prazer arrumar as palavras dos livros, arrumá-las como se elas estivessem desarrumadas e precisassem de uma ordem, de uma linha, de uma narrativa. De seguir em frente. Método e disciplina.

Método e disciplina salpicados de prazer. Eis o operário da escrita em construção. De manhãzinha, preparava a torrada com azeite, que escorria de uma almotolia que rebrilhava quando batia o sol, e depois sentava-se a escrever. Era uma vida mais calma, antes do Prémio. Ao entardecer, levantava-se do ordenador e abria uma cerveja mini, sentava-se a conversar antes do jantar. Uma vez, lembro-me, a pintura de paredes ia-o deixando doido. As palavras magoavam-no, a narrativa fugia-lhe dos dedos para sítios escuros, e ao crepúsculo estava crepuscular, sem espírito e sem disposição, enervado e cansado. Foi aí que percebi a dificuldade da parede. Estava a escrever "Ensaio sobre a Cegueira" e o romance saiu-lhe dos dedos a custo, as palavras faziam-no sofrer. Naquela lucidez feita de severidade, confirmou: este sai-me do ventre. Que seria de um escritor sem a imagem. Sem a metáfora. A metonímia. A comparação.

Martin Amis disse que não se vem da cintura industrial para escrever romances e não é verdade. José Saramago, neto de agricultores sem terras aos quais ofereceu a posteridade literária num dos mais belos e comoventes discursos de aceitação de um Nobel da Literatura (e imaginem a concorrência: Yeats, Tagore, Faulkner, Mann, Hesse, Hemingway, Neruda, Soljenitsin, Steinbeck, Camus, T.S. Eliot, Bellow, Walcott, Grass, Canetti, Milosz, Paz, Brodsky, García Márquez, Naipaul, Coetzee, et alia), "os meus avós", começou a vida como aprendiz de serralheiro mecânico. Não é a cintura industrial; e não é um piquenique de burgueses. Trabalhou nos hospitais civis (e assim foi colega do inspector Fontinhas, o poeta Eugénio de Andrade) e aprendeu a ler literatura na Biblioteca do Palácio Galveias, a Biblioteca Municipal. Os russos, com método e disciplina. Os franceses, com método e disciplina. Os italianos, com método e disciplina. E os grandes realistas americanos. E outros. O trabalho que dá aprender a pintar uma parede.

Acho que ainda não acredito que tenha morrido. Sempre o vi cheio de projectos, cheio de tarefas. Cheio de vida e de memória, como Alberti. O jeito do mundo inquietava-o e inquietava-o saber que não seria tanto dele. Há uns tempos, a Pilar disse-me que os dias eram muito duros e que ele estava frágil e que o silêncio tinha pousado sobre a sua voz. Como uma ave de rapina. Todos os dias pensava que o Verão era bom e que ele chegaria ao pino do Verão, confortado pela casa e o amor da casa. Já uma vez estivera tão mal e saíra vivo. Não chegou. A Pilar enviou-me uma fotografia dos dois, talvez para me consolar e me dar a ilusão de que tudo estava bem. Na fotografia, vejo a força de sempre, o olhar das mãos, o sol a bater, a certeza de que se segue em frente. Fixando o olhar vejo um filme do tempo. O tempo da vida de José Saramago e o tempo da minha vida. Vejo as miudezas, os pormenores, as cores, ouço as vozes, tudo está intacto. Fragmentos do passado. Todos os nomes.

Se uma vida deve ser vivida ela deve ser vivida assim. Com dignidade e generosidade, com determinação e desígnio. Com fidelidade. Com velocidade. Em todo o caso, estou triste. O sol é uma ferroada branca. E gostava que chovesse.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010