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Expresso

Hezbollah: Um estado dentro do Estado

Uma estrela do fundamentalismo

Sayed Hassan Nasrallah faz um sorriso assustador quando compara um atentado suicida a um «cocktail» após um sauna. Inflexível e inteligente, o líder do Hezbollah controla muito mais do que um movimento religioso e militar.

Quando o líder do movimento de guerrilha Hezbollah, Sayed Hassan Nasrallah, apareceu há poucos dias na televisão libanesa, a sua audiência – previamente exaltando como herói o homem que levara Israel à imobilização no Sul do Líbano, embora à custa de um milhar de vidas libanesas inocentes – ficou pouco impressionada. A guerra mais recente em que o país se viu envolvido começou a 12 de Julho, depois do Hezbollah ter atravessado a fronteira do Líbano, sequestrando dois soldados israelitas e matando mais três na esperança de trocar os seus prisioneiros por árabes detidos nas prisões israelitas. "Se o Hezbollah tivesse alguma ideia – mesmo em um por cento – de qual iria ser a reacção de Israel", disse Nasrallah aos espectadores, "nunca teria realizado esta operação"

Os muçulmanos xiitas do Líbano, a maior comunidade do país e o eleitorado próprio do Hezbollah, podem ter acreditado nisto, mas o resto da população não. Mesmo os jornalistas há muito tempo sediados em Beirute como eu dirigiram-se para o sul no dia 12 de Julho com a absoluta convicção de que os israelitas responderiam a este temerário ataque do Hezbollah com a sua habitual selvajaria. Imaginar que o Hezbollah, um dos mais disciplinados e cruéis exércitos de guerrilha do mundo, que combate os militares israelitas há 24 anos, pensava que os israelitas adoptariam uma política de contenção, seria uma ingenuidade. 

E o Hezbollah não é ingénuo. Ironicamente, foi criado como um resultado directo da maciça invasão do Líbano por Israel em 1982, um ataque que supostamente se destinava a destruir a secular OLP de Yasser Arafat – "vamos arrancar pela raiz o cancro maligno da OLP", disse na altura o então primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin – mas isso só contribuiu para criar novos inimigos e muito mais mortais entre a comunidade xiita libanesa. Os israelitas não destruíram o "cancro" da OLP, tal como não o fizeram com o Hezbollah no mês passado, apenas forneceram ao Irão e à Síria, dois apoiantes do Hezbollah no Médio Oriente, uma arma poderosa na região. Daqui em diante, os ataques do Hezbollah contra Israel no Líbano serão a espada que apoiará a exigência da Síria para que lhe sejam devolvidos os Montes Golã, ocupados por Israel durante a guerra do Médio Oriente em 1967.

Mas o Hezbollah não é o agente involuntário de uma potência estrangeira. Nos anos que se seguiram a 1982, esta instituição totalmente libanesa desenvolveu-se passando de uma milícia indisciplinada a um exército ferozmente religioso de potenciais mártires, utilizando armas – lança-foguetes anti-tanque com infra-vermelhos e mísseis de longo alcance fornecidos pelo Irão – com que a OLP nunca poderia sonhar. Inicialmente desperdiçaram a sua força em ataques suicidas maciços contra os soldados de Israel no Líbano, armados pelos americanos, mas gradualmente minaram a milícia libanesa favorável a Israel e mataram, ameaçaram e "atraíram" esses colaboradores pró-israelitas do sul do país para o seu lado.

Nas suas últimas batalhas em solo libanês, o filho preferido de Nasrallah, já com casamento marcado em Beirute, foi morto.  Nasrallah insistiu que este facto era uma honra para ele e não uma tragédia, tendo pedido às pessoas que lhe transmitiram condolências que lhe dessem os parabéns em vez de palavras de consolação. Foi fotografado a sorrir e a rir enquanto recebia chamadas de condolências. E com o seu olho ciclópico de serviços secretos cego no Líbano, os israelitas retiraram-se atravessando a fronteira israelo-libanesa em 2000 na esperança que a sua guerra desastrosa no país estivesse no fim.

Mas Nasrallah, que vem do vale de Bekaa mas que foi inicialmente comandante militar do Hezbollah no sul do Líbano, e que portanto conhece bem o terreno, percebeu rapidamente que existia uma brecha na armadura israelita: uma fatia de terreno de cultivo chamado Shebaa,  administrado pela Síria e capturado por Israel em 1967 mas que, nos termos do mandato francês no Líbano, tinha sido claramente território libanês. O Hezbollah iria agora lutar pela libertação desta pequena área de pomares na vertente da montanha. Seguiu-se outra série de ataques suicidas.

O próprio Nasrallah é típico dos homens inflexíveis mas inteligentes que lideraram as batalhas do Irão contra o Iraque durante a guerra de 1980-88 e que aprenderam muito com esta guerra titânica – embora ele não participasse directamente nela – e não menos com o espírito de martírio, tal como é praticado na fé xiita. Pedi um dia a Nasrallah se conseguia explicar a um ocidental como eu como é que um homem se pode matar a si próprio com tanta facilidade. "Pense numa pessoa que está há muito tempo numa sauna", respondeu: "Está cheio de sede, cansado, tem muito calor e sofre os efeitos da alta temperatura. Dizem-lhe então que se abrir a porta poderá entrar para uma sala serena e confortável, beber um belo cocktail e ouvir música clássica. Depois ele abre a porta e entra sem hesitação, sabendo que o que deixa para trás não é um alto preço a pagar e que aquilo que o espera é de muito maior valor".

Depois Nasrallah fez-me um sorriso largo, assustador.

Um inimigo formidável para os israelitas, sem dúvida, com dois ministros no governo libanês – e participando em pleno nas eleições libanesas – o Hezbollah tem outro suporte político no Líbano como o exército que impôs a imobilização a Israel.  Mas com as tropas da ONU agora destacadas em força no sul do país e uma resolução da ONU que exige o desarmamento do Hezbollah – algo que Nasrallah se recusa a cumprir, embora diga que não fará oposição às forças da ONU – outro desafio aguarda tanto os libaneses como o próprio Hezbollah. Um futuro político que reconhece as honras de combate do Hezbollah?  Ou outra guerra?