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Expresso

Hezbollah: Um estado dentro do Estado

Três perguntas fundamentais sobre o Hezbollah

O Hezbollah é uma organização terrorista?

O Hezbollah foi posto na lista norte-americana dos grupos terroristas pelo Departamento de Estado e na lista da organização Transações com o Inimigo. A classificação data do início dos anos 80, quando o movimento esteve directamente ligado ao financiamento e à execução de uma série de atentados terroristas contra os Estados Unidos e a Europa (como o atentado à embaixada dos EUA em Beirute, em 1983). Israel e o Canadá têm uma posição semelhante à dos Estados Unidos.

Desde o final da década de 80 que o movimento cessou este tipo de actividades contra alvos norte-americanos ou europeus e o último atentado conhecido em que esteve envolvido foi em 1994, contra um centro judeu na Argentina.

Apesar dos esforços dos Estados Unidos para exigir que a União Europeia alinhe pela classificação norte-americana, a UE recusa-se a pôr o Hezbollah na lista negra das organizações terroristas, ainda que considere possível retomar a discussão no futuro, após a efectivação de um acordo de paz entre Israel e o Hezbollah.

De acordo com a sua presente presidência finlandesa, a União tem "falta de provas" para considerar o Hezbollah um grupo terrorista. Mais ainda, a UE alerta para o perigo de alienar o Hezbollah colocando-lhe o rótulo de terrorista comprometendo assim o futuro das negociações de paz.

Como o Hamas na Palestina, o Hezbollah é uma organização militar e um partido político.

No outro extremo, muitos governos e nações árabes e muçulmanas olham o Hezbollah como um movimento de resistência legítimo.

 

O desarmamento do Hezbollah é uma tarefa nacional ou internacional?

A resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 2004 exige o desarmamento de todas as milícias libanesas ou estrangeiras existentes em território libanês, o que foi correctamente interpretado como uma exigência internacional visando o Hezbollah.

Este é a  única força politica que não dissolveu o seu braço armado, como estipulavam os Acordos de Taef, de 1990, que puseram fim à guerra civil iniciada em 1975.

A Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, de 2006, aprovada por unanimidade a 12 de Agosto, e que serve de referência para definir as condições do cessar-fogo, reafirma as disposições da resolução 1559 e dos acordos de Taef. Mas introduz uma importante inflexão em relação às tarefas da Força Interina das Nações Unidas para o Líbano (FINUL) que vai ao encontro dos desejos do Governo libanês, apoiado pela Liga Árabe.

Está claramente especificado que o objectivo da comunidade internacional é a consolidação do Estado libanês, da sua soberania e integridade territorial. Os capacetes azuis e o exército libanês responsabilizam-se conjuntamente pela criação de uma zona tampão, entre a fronteira israelo-libanesa e o rio Litani, "livre de combatentes e armas não autorizadas pelo Governo libanês". Para o resto do território e outras tarefas, a FINUL só intervirá "a pedido do Governo de Beirute". Quando Israel exigiu a colocação da fronteira sirio-libanesa sob o controlo da FINUL, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, respondeu que só seria possível ao pedido do Governo libanês.

Para este Governo (que integra um ministro do Hezbollah e dois simpatizantes), o desarmamento da "resistência islâmica" (nome atribuído ao exército do Hezbollah) depende da solução de outros contenciosos com Israel (devolução das Quintas de Sheeba, libertação dos presos, esclarecimento do destino dos desaparecidos). É uma questão que deve ser resolvida "entre libaneses", no âmbito do "diálogo nacional" que abrange outras reformas políticas, económicas e sociais. As várias reuniões já realizadas foram inconclusivas. A última, prevista para 16 de Julho, foi adiada devido ao início da guerra.

 

Poderá o Hezbollah transformar-se num partido político normal?

É a pergunta que suscita as maiores discussões, no Líbano e ao nível internacional. A resposta implica um julgamento sobre a "essência" do Hezbollah e a sua evolução ao longo de mais de 20 anos. Os analistas que vêem no Hezbollah um grupo terrorista a soldo do Irão e da Síria, ou um movimento fundamentalista cujo objectivo é criar no Líbano uma teocracia copiada do modelo iraniano, não acreditam na transformação do "Partido de Deus" num partido disposto a jogar o jogo democrático. É a posição oficial de Israel e dos Estados Unidos, partilhada por Walid Joumblatt, líder do Partido Socialista Progressista e chefe da comunidade drusa. Os partidos aliados do Hezbollah, e em particular da Corrente Democrática Livre, do general (cristão) Michel Aoun, é obviamente diferente.

Aoun, que assinou em Fevereiro de 2006 um memorando de entendimento com Hassan Nasrallah, é a força política mais representativa da comunidade cristã maronita, que governou o Líbano até 1990.

O Hezbollah, que participa as eleições libanesas desde 1992 e administra actualmente 124 municípios, nega a intenção de implantar a "sharia" (lei islâmica) ou um estado islâmico no Líbano, pelo menos enquanto não for o desejo expresso da maioria da população. Nasrallah disse publicamente que é pouco provável que tal aconteça, em razão da cultura e tradições libanesas, mosaico de 17 religiões.  

O não reconhecimento do estado de Israel também não é um critério que impeça a inclusão de Hezbollah num regime démocratico: há outros partidos e mesmo estados, maioritariamente muçulmanos, que mantêm a mesma posição. Indonésia e Paquistão são os casos mais paradigmáticos.