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Expresso

Hezbollah: Um estado dentro do Estado

«Os Estados Unidos insistem numa política falhada»

Perito em terrorismo e ex-chefe de operações e análise do Centro de Contraterrorismo da CIA, Vincent Cannistraro analisa o estatuto actual do Hezbollah em entrevista ao EXPRESSO.

O Hezbollah é uma organização terrorista?
Nos Estados Unidos o Hezbollah foi colocado na lista dos grupos terroristas pelo Departamento de Estado e na lista negra das Transacções com o Inimigo. Por isso, ao contrário de muitos países da Europa, os Estados Unidos consideram o Hezbollah uma organização terrorista. Parte da lógica desta decisão tem origem na década de 1980, quando o Hezbollah apoiava e financiava o terrorismo e estava directamente envolvido no terrorismo, incluindo os atentados contra a embaixada dos Estados Unidos em Beirute e contra os quartéis dos franceses e dos fuzileiros americanos em Beirute, em Outubro de 1983, nos quais morreram mais de 240 americanos. É também um facto que a política dos Estados Unidos nesta matéria é fortemente influenciada por Israel. Mas também é preciso salientar que o Hezbollah não se envolve em acções terroristas contra os Estados Unidos nem contra a Europa há muitos anos, pelo menos desde o fim da década de 1980. O último incidente terrorista internacional conhecido em que o Hezbollah esteve envolvido, exceptuando Israel, foi o bombardeamento do centro judaico na Argentina em 1994. Além disso, o Hezbollah tem um partido político legítimo, representa o maior grupo religioso do Líbano e está representado no Parlamento libanês. Não faz sentido rotular o Hezbollah como organização terrorista. É uma política errada.

A elite governante dos Estados Unidos concorda que isso é um erro?
Diversos ex-responsáveis dos serviços secretos e ex-funcionários do Governo dos Estados Unidos estiveram no Líbano no ano passado, encontraram-se com responsáveis do Hezbollah e até se reuniram com Nasrallah (o xeque SayedHassan Nasrallah, líder do Hezbollah). Quando regressaram aos Estados Unidos recomendaram compromissos e discussões com o Hezbollah.  Foram completamente ignorados. Não sei se toda a gente está de acordo em que eles não praticaram actos de terrorismo internacional desde 1983. Não há provas concretas em sentido contrário, mas os neo-conservadores continuam a falar de Imad Mugniyah, o antigo chefe dos serviços secretos do Hezbollah. Esteve fortemente envolvido na crise dos reféns e em acções terroristas na década de 1980 e muitos continuam a considerá-lo um instrumento ao serviço dos iranianos. De facto ele está provavelmente a ensinar guerrilheiros no Irão. Foi formalmente acusado pelos Estados Unidos, mas está do mapa há quase 15 anos. Há muito desinformação que vem dos neoconservadores: "Mugniyah fez isto, Mugniyah fez aquilo". É o pior que se pode dizer do Hezbollah no que respeita o terrorismo. Trata-se de um grupo de resistência, alguns diriam um grupo de resistência legítimo. Costumavam praticar acções terroristas, algumas verdadeiramente odiosas. Participaram em sequestros. Capturaram Bill Buckley (chefe da CIA no Líbano) e torturaram-no até à morte (1985). Desde esse período, portanto depois da década de 1980, não há provas de nada específico.

Há pessoas em funções na CIA e na comunidade dos serviços secretos americana que comuniquem hoje essa mensagem à Casa Branca?
Os que dizem essas coisas no seio da administração não são tolerados. São postos de parte. Sabem que podem pôr em risco as suas carreiras e não falam em voz alta. Os principais mentores políticos da administração são decididamente contra o Hezbollah. A sua mensagem é extremamente clara e qualquer pessoa que trabalhe para a administração pode ouvi-la. Deve-se provavelmente à influência israelita, que de novo se manifestou nos últimos tempos. Durante esta última guerra nós opusemo-nos ao cessar-fogo e encorajámos Israel a destruir o Hezbollah. Foi uma política mal concebida, irreflectida e impossível de pôr em prática. A nossa política foi em grande parte dominada pela facção do vice-presidente Dick Cheney.

O que aprendemos com o modo como o Hezbollah travou a guerra recente contra Israel?
O Hezbollah transformou-se numa força de combate extremamente eficaz, capaz de travar aquilo que os especialistas militares chamam guerras híbridas, em que utilizam células disciplinadas e altamente treinadas, uma mistura de armas convencionais, como rockets e mísseis anti-tanque, e tácticas não convencionais ou de guerrilha como dispositivos explosivos improvisados em áreas urbanas densamente povoadas. Colocam em desvantagem os exércitos convencionais, tal como os israelitas descobriram à sua custa. Os Estados Unidos não estão preparados para travar tais guerras, que se tornarão mais comuns no futuro.

Há esperança de que a política americana em relação Hezbollah mude?
Nenhuma. Apesar de limitar o espaço de manobra dos Estados Unidos, não prevejo qualquer mudança nos tempos mais próximos. Colin Powell e Richard Armitage (antigos secretário e vice-secretário de Estado) defenderam conversações com o Hezbollah e foram marginalizados. Não há qualquer voz que defenda mudanças de política no seio da administração. Graças a Deus que já só faltam mais 29 meses!