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Expresso

Hezbollah: Um estado dentro do Estado

B.I.

Quadros, funções e leque de intervenções de uma organização cuja acção ultrapassa o âmbito paramilitar e político.

O manifesto fundador do Hezbollah elaborado em 1985 fundava a ideologia e os objectivos do movimento da seguinte forma:

– A solução para os problemas do Líbano é o estabelecimento de uma república islâmica porque só este tipo de regime assegura a justiça e a igualdade para todos os cidadãos do Líbano;

– A organização Hezbollah tem como objectivo importante a luta contra "o imperialismo ocidental" e a sua erradicação do Líbano. O grupo empenha-se na completa retirada dos americanos e dos franceses do Líbano, incluindo as suas instituições;

– O conflito com Israel é visto como uma preocupação central. E isto não se limita à presença da FDI (Força de Defesa Israelita) no Líbano. A completa destruição do Estado de Israel e o estabelecimento da lei islâmica são objectivos expressos;

O Hezbollah reúne vários movimentos, principalmente o Amal Islâmico (uma dissidência do Amal) e o ramo libanês do partido Ad-Daawa. Desde 1979 que se constituíra uma ala islâmica no seio do Amal em torno de Hussein Mussawi. Em 1982, Nabih Berri, o chefe Amal, participa no Comité de Salvação Nacional ao lado de Béchir Gemayel (chefe das Forças Libanesas). Teerão intima-o a retirar-se mas ele recusa-se. Hussein Mussawi e Ibrahim el Amine (representantes do Amal em Teerão) batem com a porta e fundam o Amal islâmico com o apoio de 500 "guardiões da revolução" iranianos. A reunião deste com vários grupúsculos integristas xiitas dá origem ao Hezbollah cujo guia espiritual é o Xeque Fadlallah.

Na época, os objectivos declarados do partido eram estender a revolução islâmica iraniana e criar um estado islâmico no Líbano, o que lhe deu o nome o Partido de Deus. Hoje em dia, o Hezbollah renunciou temporariamente a esse objectivo. Nas zonas de predominância xiita, tem tomado progressivamente o lugar do seu rival Amal, corroído pela corrupção.

O Estado-maior político e militar do Hezbollah é localizável até às suas estruturas inferiores. Mas a esses níveis inferiores, elas são muito complexas e nebulosas. Sintomático da "cultura" Hezbollah é, no seu início, uma organização terrorista que passa a ser uma organização com um braço armado e uma representação nacional.

O Hezbollah faz parte do Governo libanês desde 19 de Julho de 2005, com um ministro com pasta, em resultado das eleições de Maio-Junho em que o Hezbollah obteve 11% dos votos. O Bloco da Resistência e Desenvolvimento, a que pertence, obteve 27,4% dos votos. Tem 14 dos 128 deputados do Parlamento libanês.

O serviço social tem um papel central no programa do partido. No programa eleitoral de 1996, a organização declarava o seu desejo de melhorar o sistema educativo e de saúde no Líbano. De acordo com a estação norte-americana de televisão CNN, durante a guerra de Agosto no Líbano, o Hezbollah fez tudo o que o Governo nacional deveria ter feito, desde a recolha de lixo à recuperação de escolas e hospitais e ao fornecimento de água. Criou também o Instituto dos Mártires, uma instituição que garante as despesas de criação e educação dos familiares dos combatentes mortos em acção.

O grupo gere actualmente quatro hospitais, 12 clínicas, 12 escolas e dois centros agrícolas que fornecem assistência e treino técnico aos agricultores. Tem também um departamente ambiental. Os peritos dizem que os programas de educação e saúde do Hezbollah valem milhares de milhões de euros.

Ao acompanhar a cultura secular e igualitária de um modo geral praticada no Líbano, o Hezbollah reconhece e promove os direitos das mulheres (nos moldes da tradição liberal ocidental) de forma mais firme que outros grupos associados à Jihad (guerra santa) islâmica. Por esta razão, o Hezbollah autoproclamou-se e considera-se "modelo e exemplo": "Acreditamos que as mulheres têm a capacidade, como os homens, de participar em todas as partes da vida". Desde a sua fundação que o Hezbollah tem tido mulheres a chefiar organizações de educação, médicas e sociais.

Segundo a cadeia de televisão por satélite do Hezbollah, a al-Manar ("O Farol", que emite, a partir do Líbano, para 20 milhões de espectadores espalhados por outros países árabes em árabe, inglês, francês e hebraico), o direito humano mais importante pelo qual o Hezbollah sacrifica sangue e vidas é o direito dos cidadãos libaneses à sua terra e a escolher o sistema político que desejam. Além da al-Manar, a organização tem ainda a rádio al-Nour ("A Luz") e a revista mensal da saua ala paramilitar, Kabdat Alla ("O Punho de Deus").