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Expresso

Especial Referendo

“Que nenhum partido levante a taça”

O líder do PCP considera a vitória do Sim “uma afirmação de valores progressistas e civilizacionais” e espera que nenhum partido reivindique a vitória.

O líder comunista considera que os expressivos resultados favoráveis ao Sim neste referendo se traduzam na conclusão do processo legislativo iniciado na Assembleia da República e alerta para “as manobras e pressões que os partidários do Não, a pretexto do carácter não vinculativo do referendo, não deixarão de desenvolver”.

Neste contexto e questionado sobre a possibilidade de o Presidente da República poder vir a vetar uma lei aprovada na Assembleia da República, pelo facto do resultado do referendo não ser vinculativo, Jerónimo de Sousa diz não saber “o que vai na cabeça de Cavaco Silva”. O líder comunista sustenta que “com a votação que se vai verificar só por opção ideológica deveria haver um veto dessa natureza”.

Jerónimo de Sousa, numa intervenção que repetiu mais tarde perante largas dezenas de militantes que entretanto acorreram à sede do PCP, manifestou a satisfação do seu partido pelo facto de a votação do Sim ter sido particularmente significativa nas zonas de maior influência do PCP. Deu mesmo o exemplo da sua freguesia, Pirescoxe, onde se verificou uma votação massiva do Sim, com mil votos favoráveis à despenalização da interrupção voluntária da gravidez e 160 votos contra. Ainda assim, Jerónimo afasta a ideia de que estes resultados possam ser partidarizados: “Foi uma grande vitória da mulher portuguesa, do direito à defesa da sua dignidade e saúde. Por isso, que ninguém levante a taça”.

Relativamente à possibilidade de alterações ao estatuto do referendo, pelo facto de este, nas diversas consultas ao eleitorado, não ter mobilizado a maioria dos eleitores, Jerónimo defende que “mal seria banalizar o referendo. Não seria um bom contributo”. Tem, porém, uma interpretação dos níveis de abstenção: “Muitos dos que se abstiveram entenderam que era a Assembleia da República que tinha a obrigação de legislar” e por isso, com a sua abstenção, devolvem a responsabilidade ao Parlamento.

Silêncio quebrado na sede comunista

A divulgação das primeiras projecções, pelas 20h, não mereceu grande entusiasmo por parte dos poucos militantes presentes na sede do PCP. A vitória do Sim era clara em todos os canais de televisão mas apenas dois militantes ensaiaram um tímido aplauso por breves segundos.

Alguns minutos depois, Fernanda Mateus, dirigente do PCP que teve a seu cargo a responsabilidade da participação dos comunistas na campanha do referendo, veio reagir aos resultados congratulando-se com a vitória do Sim e manifestando a sua satisfação pelo facto de "finalmente o aborto clandestino desaparecer".

A dirigente comunista sustenta, contudo, a ideia defendida há muito pelo partido, de que o resultado do referendo, conjugado com os níveis de abstenção, mostra que havia fortes e seguras razões para que a Assembleia da República tivesse tomado em mãos a iniciativa de legislar sobre esta matéria: "Agora não há razão para que não o façam".