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Expresso

Especial Referendo

O país mudou

Há oito anos o país ficou em casa. O aborto era um problema escondido. Todos sabiam dele, mas era fácil não pensar no assunto. Oito anos depois, a Maia, Setúbal e Aveiro tornaram visível o que um país conservador preferia esconder. Desde então, todos sabiam, a mudança desta lei absurda acabaria por mudar.

Mesmo a Igreja fez menção de apenas cumprir o frete de a defender. Mas uma outra Igreja, histérica e ameaçadora, veio das profundezas, com os seus fanáticos laicos, incapazes de compreenderem que o Estado democrático não serve de instrumento de evangelização e que a lei não serve para censuras morais. Com eles, meninos crescidos que enchem a boca de vida sem saber nada sobre as vidas dos outros e uma direita dominada pelo conservadorismo anti-liberal e o oportunismo eleitoral. Todos eles souberam hoje do seu real peso social e político. O país mudou.

Esta lei tem uma legitimidade política e social que outra não teria. A mudança da lei não podia acontecer no Parlamento. Sobre ela pairaria sempre a suspeita de um golpe contra a democracia. Quem se opôs a este referendo e julgou que era possível contrariar o de 1998 sem ouvir os portugueses aprendeu, espera-se, uma outra lição: a democracia é difícil mas é nossa. Ela vale sempre a pena. E quem opta por ela não em favor da sua posição não é fraco nem traidor. Apenas não escolhe o caminho mais fácil.