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Educação em crise

Boicotes e guerra às avaliações

Ministra Maria de Lurdes Rodrigues garante que não vai ceder um milímetro.

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

"Suspenda-se!"A bola de neve de contestação ao modelo de avaliação de professores cresce de dia para dia. No espaço de uma semana multiplicaram-se as escolas onde grupos de professores (em assembleia geral de escola ou de agrupamento) aprovaram moções ou abaixo-assinados apelando à suspensão do processo em curso. Pelo menos duas dezenas de escolas fizeram-no até quinta-feira.

"O nosso grito de descontentamento total é muito cá do fundo. Mas não virámos costas ao que temos de fazer, apesar de o fazermos muito contrariados", afirmou ao Expresso Maria Eduarda Carvalho, presidente do conselho Executivo do agrupamento de escolas de Vila Nova de Poiares. Este foi um dos que avançou com uma moção a pedir a suspensão do processo "que é mau para os professores, mau para os alunos e mau para o ensino".

Para já, estas acções não bloquearam o processo de avaliação, mas serviram para desbloquear outros impasses.

Perante a acção das escolas, a Plataforma Sindical acabou por formalizar ontem a exigência da suspensão do actual modelo de avaliação, que diz estar a causar "graves perturbações no normal funcionamento da escola". E os movimentos não sindicalizados de professores pediram uma reunião com a Fenprof para, "com espírito de diálogo, analisarem os pontos de divergência e de convergência", disse ao Expresso Mário Machaqueiro, da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino. Fica em aberto se vão chegar a acordo para se concentrarem numa manifestação conjunta.

Recorde-se que há duas manifestações marcadas: uma para 8 de Novembro, convocada pela Plataforma Sindical, e outra para 15 de Novembro, convocada pelos movimentos não sindicalizados.

Nas escolas e na blogosfera muitos professores alarmaram-se com os efeitos nefastos desta cisão.

Perante a marcação das manifestações contra o processo de avaliação e a ideia de a Plataforma sindical avançar com o pedido de suspensão, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues mantém-se irredutível. Em declarações ao Expresso, criticou os sindicatos "porque as pessoas não podem assumir uma coisa num dia e no outro alterar a posição", e disse não estar disponível para propostas alternativas antes de Julho, como previsto no 'Memorando de Entendimento' assinado em Abril. Este permitiu a ultra-simplificação do processo para sete mil professores em 2007/08 e o adiamento da sua universalização a título experimental em 2008/09.

Por seu lado, Mário Nogueira, dirigente da Fenprof e porta-voz da Plataforma Sindical, diz que não há violação do acordo, porque o que quiseram fazer em Abril foi "salvar o terceiro período de aulas e impedir que a avaliação paralisasse as escolas, como está a acontecer agora". E reafirma que "este modelo burocratizado de avaliação é inexequível e as escolas estão a aperceber-se agora do monstro".

A ministra garante que o modelo de avaliação "é exequível" e procura apagar a contestação generalizada, apelidando-a de "ruído" provocado "por quem tem medo da avaliação". Lurdes Rodrigues argumenta que o seu "dever é apoiar as escolas e os professores que estão a tentar fazer esta avaliação contra ventos e marés" e que está "disponível para ajudar as escolas a ultrapassar os obstáculos".

Entretanto, foram criadas duas equipas "SOS" para acudir às dificuldades das escolas. Porém, o próprio director geral de recursos humanos da Educação, Jorge Morais, admite que "é impossível irem a todo o país". O ministério não permitiu ao Expresso falar com elementos destas equipas.

"Um órgão inútil" "As recomendações do Conselho Científico para a Avaliação de Professores não tiveram sequência", critica Matias Alves, a segunda baixa neste órgão consultivo do Ministério da Educação. O docente, que sai porque foi requisitado para o ensino superior, admite que "o modelo de avaliação é excessivamente burocrático e centrado no que não é central". Entre as recomendações não ouvidas pelo ME está a "injustiça de o professor ser penalizado pelo abandono escolar dos alunos, quando isso depende de múltiplos factores". Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Outubro de 2008