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Expresso

doclisboa 2006

Filmes d’elas

Na próxima sexta-feira começa o DocLisboa, o maior festival dedicado ao cinema documental. Em Portugal esta é a área criativa onde as mulheres estão em maioria. Seis realizadoras explicam porquê.

Persistência. Esta é a resposta consensual de seis realizadoras quando questionadas sobre a razão de em Portugal serem sobretudo as mulheres a fazer documentários. "Persistência, resistência, capacidade de improvisar. Adaptar. O documentário é um processo muito longo", sintetiza Catarina Mourão, uma das mais conceituadas na área do documentário.

"Corro sempre todos os riscos", sublinha Margarida Cardoso, a única das seis realizadoras com quem o EXPRESSO falou a ter já passado pela ficção - "A Costa dos Murmúrios" - e a que tem mais visibilidade em festivais internacionais.

"O que é caro em documentário é o tempo", acrescenta Catarina Alves Costa, a antropóloga que preside à AporDOC (Associação para o Documentário). E persistência tem a ver precisamente com a capacidade de ir resistindo.

"Haver tantas mulheres no documentário é um fenómeno inexplicável", reflecte Graça Castanheira. "Às vezes, passam-se dias e dias sem que apareça um único homem que seja na AporDOC. Nós próprias ficamos estupefactas".

Nuno Sena, programador da 4.ª edição do DocLisboa (20 a 29 Outubro, Culturgest), confirma: "A grande visibilidade de documentários feitos por mulheres é já um sinal claro de que há mais mulheres a trabalhar". Esta resposta tem por base uma constatação imediata: são mulheres as realizadoras de oito dos 13 documentários que serão apresentados neste Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa, e que foram seleccionados entre 110 filmes nacionais.

Um género mais flexível

"Historicamente sempre foi difícil para as mulheres penetrarem na ficção, tradicionalmente um meio muito masculino e mais conservador. É necessário muito dinheiro para produzir uma longa-metragem e, por isso, os riscos de atribuir subsídios a uma primeira obra são enormes", diz Nuno Sena, que acrescenta: "O processo de trabalho do documentário é menos pesado, mais flexível e mais livre".

Sentada frente ao computador, Margarida Cardoso vai abrindo ficheiros no "Mac". "Nos últimos seis anos houve uma grande democratização dos meios. Pode fazer-se quase tudo em casa. Acredito que o facto de haver tantas mulheres em Portugal a trabalhar nesta área tenha sobretudo a ver com este lado prático e acessível do documentário. Permite-nos uma grande autonomia e a possibilidade de fazermos nós próprias a gestão dos meios e do tempo".

Na mesa ampla, banhada pela luz do início da tarde, estão espalhadas inúmeras folhas anotadas de texto e de "story-boards", que a realizadora vai pegando e rabiscando enquanto dá indicações ao telefone. De vez em quando imita o som de um cavalo. Do outro lado da linha, na Bélgica, o produtor de efeitos digitais vai inteirando-se da posição dos cavaleiros e faz perguntas sobre cenas do filme que vai começar a ser rodado - trata-se de um documentário ficcionado sobre a batalha de Aljubarrota, uma encomenda do Centro de Interpretação da Batalha com o objectivo de ser projectado no museu em permanência e em simultâneo em três ecrãs. É um trabalho que envolve uma produção gigantesca, com mais de 800 figurantes e sobretudo muitos meios para trabalhar digitalmente. "Sinto-me a comandar um exército", ironiza Margarida quando desliga o telefone e regressa à conversa connosco. "Tradicionalmente seria um homem a realizar este tipo de documentário. Mas a minha produtora, a Filmes do Tejo, teve confiança em mim e quem fez a encomenda não pôs objecções. Só perguntaram: ‘Mas a Margarida não é antimilitarista?’". A pergunta tem razão de ser. Todos os trabalhos da realizadora partem do mesmo núcleo: África e memória. "Tudo o que me interessa no documentário tem a ver com o meu passado. 'Natal 71', o meu primeiro trabalho, reflecte a relação do meu pai, militar, e Moçambique. Queria perceber de onde vem esta profunda melancolia que se entranha em nós. E contar a História através da minha história. Para esta abordagem, o documentário é o dispositivo certo".

No ano em que Catarina Alves Costa, presidente da AporDOC, estava em Cabo Verde a preparar um filme sobre o músico-compositor Orlando Pantera, soube que uma equipa do arquitecto Siza Vieira chegaria à Ilha de Santiago para fazer um projecto de recuperação da Cidade Velha a pedido do Governo cabo-verdiano. O objectivo era a candidatura daquele património à UNESCO, e a antropóloga, que conhecia razoavelmente a comunidade e Siza Vieira, intuiu que no encontro entre o arquitecto e a população local haveria matéria para um filme. "Percebi logo que iria haver ali uma tensão. Havia as expectativas das pessoas, a personalidade de Siza e os interesses do governo de Cabo-Verde. Gosto muito de filmar esses momentos, em que percebo que aquilo vai transbordar. Coloco a câmara a servir de catalizador no conflito". Partiu sozinha, de câmara na mala, e começou a filmar mal chegou a equipa de do arquitecto. Esse encontro está contado em 'O Arquitecto e a Cidade Velha', que demorou quatro anos a fazer. "No documentário o que é caro é o tempo. A minha formação é a antropologia e o documentário é um meio muito usado nesta disciplina. O que distingue o documentário da ficção, apesar de este também ser subjectivo, é que parte do real. Sempre gostei de observar a vida, as pessoas e as suas relações".

O olhar feminino

Para Catarina Alves da Costa, provavelmente, as mulheres estão mais habituadas a olhar o mundo dessa forma, "terem uma observação mais detalhada dos pormenores, dos gestos e das pequenas histórias". Mas nem só isso a atrai no documentário: para a realizadora são fundamentais as características da produção - estruturas leves (com as novas tecnologias basta uma câmara e um microfone), equipas pequenas e produção de baixo orçamento.

Num campo de futebol vazio, duas miúdas em fato de banho apanham sol. A mais nova ergue a cabeça, afasta o cabelo com a mão, vira a cara para a câmara e pergunta: "Ó Catarina, tens namorado?" A realizadora responde-lhe e assume-se também na matéria do filme. A cena passa-se num bairro periférico do Porto e faz parte do documentário'À Flor da Pele', de Catarina Mourão.

No Verão de 2004, Catarina tinha sido desafiada pelo Teatro Rivoli, do Porto, para filmar o acontecimento do Europeu de Futebol num bairro problemático da cidade. E andava por lá com o "cameraman" João Ribeiro a captar aquele momento único de exaltação colectiva nacional proporcionado pela selecção portuguesa. No entanto, 'À Flor da Pele' não é um filme sobre o Euro 2004. É um bocado de infância, captado num tempo de férias e atravessado pelo som dos jogos. "Antes de começar as filmagens, eu e o João ficávamos sentados a observar a vida que decorria frente aos nossos olhos. O que verdadeiramente nos prendia o olhar eram os miúdos que andavam por ali dias inteiros à solta a interceptar-nos e a desafiar a câmara", conta Catarina. "Este documentário, que congrega várias mulheres, surge da herança do cinema directo, mais livre e experimental, e dessa vontade de haver uma relação com a realidade, sem a marcar nem a controlar. Numa primeira fase, as mulheres têm essa apetência e essa curiosidade".

"O cinema documental é como os ‘reality-shows’: as pessoas adoram ver as coisas em directo", compara Inês Gonçalves. Na próxima semana, 'Pátria Incerta', o segundo filme da fotógrafa em co-autoria com Vasco Pimentel, irá ser apresentado no DocLisboa. Centrado na comunidade católica de Goa, é um filme sobre a identidade. A ideia de o fazer surgiu-lhe quando viajava pelo Estado de Goa, com Catarina Portas, durante a preparação do livro desta, "Goa: História de Um Encontro".

"Continuo a dizer que sou fotógrafa, embora hoje em dia trabalhe mais nos filmes. Desde os 18 anos que tenho a máquina entre mim e as pessoas. O que muda, quando se está a filmar, é que todo o corpo tem de estar totalmente concentrado. Não pode haver um gesto brusco, uma mão a tremer. Se falhamos, perde-se a cena. No documentário é o momento que conta". O fascínio de Inês pelo documentário tem a ver com o som. Diz: "A fotografar sempre tomei atenção ao que as pessoas diziam. Um dia, numa aldeia remota de Goa, onde tínhamos ido visitar a irmã solteira de um padre católico, uma típica figura goesa, estávamos a tomar chá numa mesa posta com toalha de linho e de repente ela dá-me uma receita de bolachinhas de limão. Parecia uma cena do Minho. Goa é um território óptimo para se perceber a questão concreta da miscigenação. Nesse dia, senti que a história tinha de ser contada através do quotidiano das pessoas e para isso o documentário é perfeito".

A "coisa baça da realidade"

"Gosto de ti como és". A este verso da marcha popular, cantada no bairro da Bica, em Lisboa, Sílvia Firmino foi buscar o título para a sua primeira longa-metragem. Começou a prepará-lo três anos antes de o apresentar, pela primeira vez, no DocLisboa 2005. O tempo de espera trouxe-lhe a compensação de uma vitória: "Melhor Documentário Português".

Foi nos Encontros da Malaposta, em Odivelas, que descobriu "uma visão cinematográfica do mundo", à qual nunca tivera acesso. "Essa coisa baça que é a realidade, esse fluxo ao qual somos indiferentes, são bocados de cinema incríveis", confessa.

Sílvia recorda que começou por aparecer na Bica de câmara na mão em 1999, altura em que conheceu a família na qual acabou por concentrar o guião do documentário. E explica que a intromissão de um corpo estranho numa comunidade é o embate principal para quem chega e quer filmar; a relação de confiança que se estabelece com quem se vai filmar é uma premissa inegociável, sem a qual não existe matéria de filme.

Acabou "Gosto de Ti como És" no Verão de 2004, sem subsídios e quase sem meios, e com muitos fins-de-semana roubados ao descanso. "Foi uma luta. Já só queria encerrar aquele capítulo e ir para Berlim fazer a minha tese de doutoramento", conta Sílvia. Pouco tempo depois, um telefonema da produtora Laranja Azul antecipa-lhe o regresso. Manuel Falcão, a par do projecto e na altura director da AGEAC (empresa responsável pelas iniciativas culturais da Câmara Municipal de Lisboa), queria comprar o filme. O prémio valeu-lhe entrada numa série de festivais internacionais. "O filme é muito bem recebido, no contexto do cinema etnográfico, por ser um acompanhamento de uma festa popular, embora não tenha sido por aí que fui levada a fazê-lo". A ideia inicial surgiu-lhe de uma perplexidade: o que leva um grupo de pessoas a viver o ano inteiro com o objectivo de mostrar o orgulho do bairro, nessa descida da Avenida da Liberdade, e fazer desse momento o acontecimento vital do seu quotidiano?

"O documentário é a história de uma relação", confirma Graça Castanheira, professora de Cinema Documental e de Documentário Contemporâneo na Escola Superior de Teatro e Cinema. "Este movimento que se está a gerar, e que motiva as pessoas a pegarem na câmara e fazerem filmes, tem sobretudo a ver como uma necessidade de reflexão sobre a sociedade contemporânea".

Graça, que faz parte do grupo fundador da AporDOC, terminou o Curso de Cinema no Conservatório de Lisboa, em 1989, mas nunca realizou ficção. Quando descobriu o documentário, contaminada por um seminário a que assistiu, não teve dúvidas: "É Isto!" "Logo Existo", o seu sétimo filme, vai estrear no DocLisboa e parte de uma matéria sensível: "São histórias de pessoas que sofreram AVC (acidente cardiovascular), e propõe uma reflexão sobre questões entre a biologia e o comportamento que a doença levanta". "Recebi um convite da Fado Filmes, que já tinha apoio do ICAM, e a Diana Andringa, que é uma jornalista especializada em documentários, desafiou-me a pegar no tema. Ela sabia que a minha mãe tinha falecido, pouco tempo antes, após sofrer um AVC. Percebi que me interessava explorar interrogações que me surgiram com a experiência da minha mãe: o que é isto de sermos parte do nosso cérebro? O que é termos de reconstruir uma identidade a partir do acidente? Este filme permitiu-me revisitar aquele período das nossas vidas e, de algum modo, fazer um processo de luto mais profundo".

A edição do DocLisboa 2005, teve 18 mil espectadores. O número surpreendeu os próprios organizadores. "É verdade que há um ‘boom’ do documentário", esclarece Catarina Alves Costa. "Mas depois dos festivais, as salas voltam a ficar vazias, não há ligação entre uma coisa e outra". Adianta Inês Golçalves: "Fazemos filmes porque acreditamos que é mesmo importante contar o que filmamos. Quando os filmes não passam, quando ninguém os vê, é uma coisa muito triste". Neste aspecto, "Lisboetas", de Sérgio Tréfaut, foi a excepção que confirma a regra: fenómeno de afluência do público às salas de cinema para ver um documentário foi caso inédito entre nós.

João Ribeiro, "cameraman" com grande rotação no cinema documental e que, entre as realizadoras com quem falámos, só não trabalhou com Margarida Cardoso, não encontra nenhuma especificidade no documentário que leve as mulheres a optar pelo género. "O documentário que se faz cá é ainda muito observacional". "No documentário português, seja de homens ou mulheres, sempre houve uma busca das coisas mais íntimas. Um documentário para funcionar, para vender, para ser democrático, precisa de furar esta barreira. Penso que seja este o passo que falta dar: conseguir transformar o íntimo em matéria universal".