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Expresso

doclisboa 2006

As armas de Gitai

O realizador Amos Gitai explica como a situação do Médio Oriente praticamente o empurrou para o cinema documental.

Se tivesse nascido noutro ponto do planeta, o israelita Amos Gitai muito provavelmente não teria enveredado pelo cinema. Foi praticamente a realidade a empurrá-lo para os documentários. Para muitos, a guerra faz acender sentimentos de ódio nacionalista, no seu caso, levou-o a querer ver e compreender ambos os lados da “barricada”. O realizador está pela primeira vez em Portugal, como convidado do doclisboa que abre esta noite com a apresentação do seu filme “News from Home/News from House” (21h30 – grande auditório da Culturgest). Amanhã à tarde (16h30), no mesmo local, o realizador irá apresentar uma conferência sobre a sua obra documental. O EXPRESSO ouviu os motivos que o movem.

Abandonou a arquitectura e decidiu dedicar-se ao cinema documental após ter sido mobilizado e ferido durante a guerra do Yom Kippur.
No Médio Oriente, infelizmente, continuam a ocorrer estes ciclos sangrentos, que “raptam” as pessoas do seu quotidiano. A guerra do Yom Kippur começou por esta altura do ano, em Outubro. De súbito, por volta das 2h da manhã, as sirenes começaram a soar e as pessoas foram das suas casas para a guerra. Não foi propriamente algo que tivéssemos pensado fazer naquele dia. Eu tinha 23 anos. No quinto dia encontrava-me numa unidade de salvamento que evacuava feridos de helicóptero quando fomos atingidos por um míssil sírio. O co-piloto ficou decapitado, o “cockpit” destruído, de algum modo o piloto conseguiu pôr-nos no chão. Eu saí ferido nas costas. Por alguma estranha razão, fiquei vivo.

Esse incidente traumático foi decisivo? Constituiu um ponto de viragem na sua vida?
Após ter estado algum tempo no hospital, senti necessidade de resolver o assunto comigo próprio. Na altura, estava a estudar arquitectura – era suposto seguir os passos do meu pai, que foi arquitecto da Bauhaus –, mas a arquitectura tornou-se algo distante. Quis pôr cá fora a minha visão da história do meu país. Gradualmente, comecei a fazer filmes. Primeiro, usei Super 8. Filmei algumas cenas. Não tinha quaisquer conhecimentos técnicos, adquiri-os pouco a pouco. Foi um processo lento.

Como reminiscência dessa sua formação em arquitectura, as casas surgem como um forte elemento dos seus filmes, associadas ao conflito pelo território e a sentimentos de pertença e de identidade, como acontece na trilogia “House”.
Somos bombardeados com as imagens “simplificadas” dos “media” sobre o conflito, quase intoxicados por elas, de modo que precisamos de metáforas muito fortes para ter acesso a outra perspectiva. A casa fornecia-nos isso. Um único objecto, uma única casa (que pertenceu primeiro a palestinianos e depois a israelitas) revela-nos o destino das pessoas que a ela estiveram ligadas, destino que, por sua vez, está ligado a toda a história do Médio Oriente. Filmei-a em três ocasiões ao longo de 25 anos.

“Bait”, o seu primeiro filme encomendado pela televisão israelita, acabou por ser rejeitado. O que é que aconteceu?
Estamos a falar do final dos anos 70, uma altura em que a maior parte dos israelitas gostariam de pensar que os palestinianos não existiam, de facto, e o filme mostra o contrário, que eles existem e que têm memórias daquelas terras que estiveram na origem do conflito. Os responsáveis da televisão israelita não o quiseram mostrar, apesar de o terem produzido. Para agravar ainda mais as coisas, alguns anos depois fiz outro filme, "Field Diary" (1983), rodado durante a primeira guerra com o Líbano... A seguir a isso, foi-me dito que não poderia trabalhar mais para a televisão israelita e que deveria encontrar outras coisas para fazer. Foi o que fiz.

Nessa altura mudou-se para França?
No começo dos anos oitenta mudei-me para Paris. Tínhamos uma filha pequena e pensámos ficar lá umas semanas, mas acabámos por lá ficar 8 anos. Foi duro porque amo o meu país e sinto-me muito ligado a ele, apesar de nem sempre concordar com o que lá se passa. Fui para Paris onde nem sequer falava a língua (falava apenas inglês), mas precisava de encontrar trabalho. Em retrospectiva, acho que foi muito instrutivo a nível tecnológico, mas naquela altura não foi nada fácil.

Qual é o ponto de partida dos seus filmes? Uma situação que sente necessidade de denunciar?
Nos documentários precisamos de um foco específico. Em determinadas alturas, é melhor não filmar nada, pensar primeiro e filmar depois. Por exemplo, durante o último conflito entre Israel e o Líbano estava na minha cidade, Haifa, que foi bombardeada com mísseis. Amigos de todo o lado ligavam-me a dizer: “Temos a certeza que estás com a tua câmara a filmar”. Disse-lhes: “Não, não estou a filmar, primeiro estou a observar”. Primeiro precisamos de observar, digerir, perceber que tipo de registo queremos adoptar, porque o cinema, tal como qualquer forma de arte com conteúdo mas sem forma, não é nada, são só ideias em bruto. Primeiro precisamos de um conceito. Depois temos de estudar o nosso objecto, conhecê-lo e ficar ligado a ele pelo coração.

Em geral, filma sobre assuntos com os quais tem uma forte ligação. Procura adoptar a atitude observador-participante?
Sim. Não devemos pretender que, por filmarmos algo com que realmente nos importamos, passamos a fazer parte dessa comunidade. Nós somos alguém de fora, um estrangeiro, mesmo no nosso próprio país. Não nos tornamos membros da casa, da comunidade, somos apenas alguém que a observa e procura perceber melhor. Este acordo implícito entre o realizador e o assunto é muito importante. Podemos sentir simpatia e afeição, mas devemos deixar as pessoas agirem sem as estarmos a influenciar negativa ou positivamente.

Em muitos dos seus filmes como nas “séries” de Wadi ou House volta ao mesmo lugar, às mesmas pessoas, anos depois. Gosta de acompanhar a evolução das suas vidas, como um reflexo da situação do Médio Oriente?
As pessoas de “Wadi” ou de “House” pela sua sabedoria e pela sua original forma de pensar levam-nos para áreas que nunca pensaríamos ver. No último filme de “Home” dois palestinianos surgem como os mais severos críticos dos regimes árabes. A grande defesa do Islão vem de mulheres israelitas. Tenho grande admiração por quem atravessa as fronteiras e não se preocupa só com a defesa do seu grupo. Nós já somos bombardeados nos noticiários da noite com as versões oficiais. Eu prefiro ouvir o meu próprio parlamento, as pessoas da House são o parlamento que eu próprio elegi. Gosto de tempos a tempos ir ver o que se passa com elas e de ouvir a sua opinião sobre as mudanças que estão a ocorrer. A grandeza dos documentários é poder ver o seu envelhecimento, não se trata de maquilhagem… Deixar passar o tempo e ver a sua evolução, a par dos grandes acontecimentos históricos

Os seus filmes têm longos planos, que se prolongam após os intervenientes terem acabado de responder às suas perguntas. É uma forma de os deixar interagir sozinhos com a câmara?
Sim, também. Gosto de instalar um tempo, um ritmo de filme em que o espectador possa digerir o que viu, o que está a ver. Não o quero engolir com demasiada informação, como acontece nos noticiários ou nos filmes de acção. Quero ter espectadores activos. Dar-lhes tempo para pensar no que viram, para que as imagens possam pôr em causa os pressupostos que tinham sobre o assunto. Para isso, é preciso não fazer uma edição género “Speedy Gonzalez”.

O seu trabalho de ficção surge como uma evolução do cinema documental? Uma forma de mostrar lados que não são passíveis de serem mostrados nos documentários?
Sim. Não sei se será uma evolução, porque não considero que uma forma de cinema seja superior à outra, porque são ambas formas muito poderosas de cinema, mas senti a necessidade de abordar alguns temas através da ficção, como aconteceu em “Kadosh”, sobre religião, ou em “Promise Land”, sobre perseguições. Gosto de alternar entre filmes de ficção e documentários.