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Expresso

Campeonato Nacional da Língua Portuguesa

Viagem à descoberta das palavras

Dicionários e gramáticas não são só livros técnicos. Podem ser, também, livros de aventuras.

O que lhe propomos é algo diferente: que se divirta tanto a responder quanto nós nos recreamos ao preparar as perguntas. Encarar com seriedade a compita e almejar uma óptima pontuação não é antagónico com a aventura lúdica que leve à descoberta da língua.

Um romance tem a capacidade de nos transportar por caminhos inusitados e tramas surpreendentes? Pois tente sentir as mesmas sensações folheando um dicionário enquanto se prepara para responder aos testes.

Por exemplo, procure a palavra sertão, que já ouviu vezes sem conta e sobre a qual certamente já leu excelentes descrições em romances: lá está, de origem incerta - talvez do latim sertãnus, de sertus, que é particípio passado do verbo serëre, entrelaçar -, essa região tão agreste, distante de povoações ou de territórios cultivados amiúde, longe do litoral. No Brasil, sertão bruto, bruto mesmo, é o que é totalmente desabitado, que os outros, um tudo nada menos brutais, sempre são povoados, para «felicidade» do Cinema Novo brasileiro, que tão bem retratou aquelas almas, e para mal dos pecados dos homens que ali insistem em sobreviver, valentes sertanejos. Mas sertão também pode ser cada um dos compartimentos de uma salina.

De repente, quase ao fechar o tomo, os olhos vagueiam e prendem-se mais abaixo, na mesma página: serventia, qualidade daquilo que é útil ou pode servir. Muita serventia faria água, lá no sertão. Entre duas propriedades, a serventia é de muita serventia, geralmente para mais alguém do que o dono do sítio! E há o cidadão que - infeliz será, rezam as crónicas - dá serventia, pois que serve de ajuda em dado serviço, tanta vez em semi-servidão... Se vai passar a serventia a cavalo, faça o favor de serrilhar, pois se assim não proceder na emergência o cavalo pode teimar em não obedecer e o mais certo será cair.

Descanse o leitor, não continuarei a serrazinar-lhe o juízo. Mas sempre lhe digo que, na coluna ao lado, me informam que serranas não são apenas as moçoilas das alturas, belas quanto a cantada por Camões: pode ser uma vetusta barca usada no rio Mondego e será sempre uma cantiga pastoril do período trovadoresco ou provençal que trata da vida e dos amores da mulher da serra.

Nas quatro colunas de arrumação de um elementar «tira-teimas», quanta magia nos enleia ao ponto de esquecermos ao que íamos! Realmente... à cata de que palavra fomos levados a abrir o dicionário naquela página?! Ah!... esse sertão de securas, reverso do caudal de enxurrada que, nome após nome, nos conduz pelo encantamento do português. Quem disse que um dicionário não vale um bom romance? Nos próximos três meses, eleja o dicionário sua companhia e leitura diária, como se de outro livro se tratasse. Faça a experiência! E agora adeus que (na mesmíssima página) me vou em busca da sertelha (tem graça: do mesmo latinório sertus, serëre, entrelaçar!), que é tempo de aparelhá-la. E o que eu adoro enguias!

O nosso repto

Nos três meses que dura o Campeonato Nacional da Língua Portuguesa, utilize o dicionário para mais do que tirar as dúvidas que surgem ao responder aos testes: ele pode muito bem ser um inesperado utensílio de leitura envolvente!