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Expresso

Campeonato Nacional da Língua Portuguesa

Charlas linguísticas

Em 1958, fazia sucesso um programa de televisão sobre a língua portuguesa.

Cumpriram-se esta semana 50 anos do início das emissões televisivas em Portugal, obra da RTP. Parabéns! Mas o que aqui vem fazer a TV é pela memória de um programa lançado um ano depois, em 1958, e que fez furor, mobilizou gentes e desencadeou polémicas acesas: 'Charlas Linguísticas', de Raul Machado.

Num dossiê apresentado no 'Diário de Notícias', João Lopes e Nuno Galopim referiam-no com destaque enquanto "um dos primeiros casos sérios de popularidade televisiva". Com razão.

Quem não tem idade para ter assistido a tais "divagações", não deixa de sorrir diante de fotografias da época: um «décor» minimalista disposto a um canto de um "quarto", com um quadro preto sobre um tripé, uma cadeireta quase nunca utilizada - Raul Machado, grande comunicador, preferia estar de pé, usando o quadro, gesticulando, abrindo e fechando gramáticas e livros de referência - e uma mesa pequena, simples: um tampo, quatro pés desnudados.

E assim o douto padre introduzia os espectadores de antanho nas subtilezas da língua, invectivava, frequentemente de forma ácida, contundente, alguns linguistas feitos à pressa - que já os havia naquele tempo, como os há hoje.

A Sociedade da Língua Portuguesa editou estas charlas riquíssimas logo em 1960, depois numa reedição em 1998, de que ainda restam alguns exemplares. Foi uma homenagem ao Professor Doutor Raul Machado, mas a leitura dessa edição impressa dos seus programas é oportunidade para passar momentos deliciosos e instrutivos! Com garra e excelente capacidade de reacção às críticas recebidas, o nosso homem - com o devido respeito pelo Professor - entusiasma-nos com as onomatopeias e a origem dessas "palavras expressivas", com a linguagem falada e a linguagem por instinto, com coisas como a vontade de modificar uma tabuleta com 'Atenção - Trabalhos!' por outra, correcta: 'Cuidado - Obras!', com a terminologia do futebol...

E vai ao latim, explica, torna a dar-nos lição, insiste, não se furta ao confronto. Preocupa-se com o carácter doutrinário e com os aspectos legais, submetendo os comentários à norma e realçando-a, mandando para "canto" os fanfarrões. "Canto"? Eis um dos vocábulos futebolísticos, de quem "trata a bola por tu", este felizmente em português, contra os estrangeirismos que à época abundavam na "especialidade": «keeper», «back» e esse estrangeirismo patrioticamente aportuguesado que dava pelo pícaro nome de "alfes", quando no plural!