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Expresso

Campeonato Nacional da Língua Portuguesa

"A história da escolaridade primária é a do ensino da leitura e da escrita"

Um estudo sobre o ensino das primeiras letras em Portugal permitiu analisar como se aprendia a língua nas escolas de antanho.

Numa tese apresentada na Universidade de Rouen, França, a portuguesa Carmo Gregório impôs-se o desafio de abordar uma temática nunca inventariada na análise do ensino de matérias nucleares no seio da instrução nacional: a escrita e a leitura.

Investigou o desenvolvimento dos métodos usados nas escolas portuguesas num período que vai de 1850 a 1974. Examinou manuais, programas, posturas, normas e leis, rebuscou na memória de entrevistados. Ousou pensar o edifício do processo de educação escolar como se de um ritual teatral se tratasse, explicando onde estão, neste enquadramento, bastidores, cena e plateia e quem as preenche.

Ao contrário do que seria de imaginar, descobriu que esses 125 anos não se subdividem com simplicidade sob os caprichos dos fenómenos políticos: "Num período tão longo, as três etapas que nele distingo não correspondem essencialmente a balizas que tenham a ver com rupturas e períodos políticos, mas sobretudo através dos elementos da pedagogia utilizados".

O primeiro período, o tempo da diversidade (1850-1894), caracteriza-se por não existir um mesmo manual em cada sala de aula. Cada aluno tinha o seu manual ou nem tinha manual: levava uma carta, um contrato, uma oração, uma pagela..., e eram esses utensílios, mais ou menos eficazes, que lhes serviam de esteio da aprendizagem das letras. "Qualquer elemento escrito servia, porventura até com erros. Cada aluno, com o seu manual ou o seu bocado de papel impresso, vai à vez junto do professor receber a lição, cada um no seu ponto de evolução diferente, o que gera uma confusão razoável, pois os outros aguardam a sua vez, sem controlo, numa espécie de caos".

Entre 1895 e 1940 é o tempo da uniformidade: cada docente escolhe um manual e todos os seus alunos aprendem a partir dessa base única, dirigindo-se o professor, em simultâneo, ao conjunto dos alunos. Vem depois o tempo da unicidade, entre 1941 e 1974: imperam os princípios do Estado Novo, instaurando-se o compêndio único para todo o país, subjugado ao panegírico da ditadura.

Lembra Carmo Gregório: "A história da escolaridade primária é, no essencial, a do ensino da leitura e da escrita, do contar também, mas principalmente das primeiras, mesmo quando, com a implantação da República, se estabelecem novas disciplinas. Mas depois o manual único fará regressar tudo ao elementar: leitura, escrita, aritmética. E a religião, é claro, que está sempre presente".

Quanto ao ensino da língua, ele é sobretudo a aquisição de uma série de regras e a escola é o local de socialização em que se incutem essas regras. "Desde a postura a adoptar para escrever, às normas que se devem respeitar no uso da língua. No fundo é uma forma de 'domesticação'. Com a obrigatoriedade do cumprimento severo de regras cuja violação era punida: cada erro, uma reguada, por exemplo!".

Se o ensino da língua tem de inventar a noção de prazer, também deve manter o sentido da responsabilidade. Será preciso reintroduzir determinados rituais na aprendizagem? Carmo Gregório concorda: "Eles dão segurança, a quem ensina e a quem aprende. E talvez aí esteja o nó da questão: a valorização social da leitura e da escrita, para que também na escola sejam um valor pelo qual valha a pena o sacrifício".

Existirá, hoje, uma intrusão excessiva do lúdico? "Havia uma carência, a seguir houve um excesso compreensível. É preciso passar essa fase e perceber que atingir o saber exige trabalho, um certo sacrifício. Tanto na sociedade como na escola está mais ou menos generalizado que é tudo fácil, e não é! A aprendizagem exige esforço, obriga a deixar outras coisas para trás. Como tudo na vida, é preciso prescindir de determinadas coisas, do próprio prazer imediato - que é o lúdico -, para atingir algo que fica a um outro nível, superior".

Infelizmente, a tese de Carmo Gregório ainda não está editada em Portugal. 'L'Enseignement de la Lecture et de l'Écriture au Portugal (1850-1974)' foi publicada pela conceituada editora L'Harmattan, e já está disponível entre nós essa mesma edição.