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Expresso

O que a censura cortou

Prémios para as palavras cruzadas

Na pág. 2, a rubrica 'Portugal Político' levou cinco golpes. Com as iniciais NS, o estilo era de Marcelo Rebelo de Sousa.

'Amanhecer', assim se chamava o livro da cantora Joan Baez, editado pela Moraes. Era um dos prémios a atribuir aos vencedores do concurso nº 45 das palavras cruzadas. A Comissão do Exame Prévio, porém, riscou o nome da pacifista norte-americana, que se destacara na luta contra a guerra do Vietname, bem como do seu livro. O mesmo sucedeu a dois dos problemas das palavras cruzadas: "Foi esse o pretexto com que os portugueses começaram a colonizar" e "Partido único português até 1969".

As soluções, ambas com duas letras, eram bem simples: "Fé" e "UN". É claro que na edição de 8 de Dezembro de 1973 não houve concurso... Por falar em livros: a secção Gente voltava a elogiar o terceiro volume de 'A Funda', de Portela Filho. "Cada funda que atira tem a marca do seu requintado humor ácido". Este comentário passou, mas destino diferente teve a observação imediata: "A terceira bateu o recorde".

A participação de Portugal em projectos europeus de enriquecimento de urânio foi noticiada na primeira página, mas com quatro cortes. A orientação inicial foi rejeitada pelo plenário do Governo, "por iniciativa do Presidente do Conselho, a que não terá sido estranho o retomar de funções do presidente da Junta, general Kaúlza de Arriaga". Também na primeira vinha uma história sobre um enigmático cidadão russo, de nome Victor Louis, correspondente do vespertino inglês 'Evening News', que se avistou em Portugal com "Rui Patrício, Moreira Baptista, Pedro Pinto, Alexandre Vaz Pinto, pelo menos".

Ainda na capa, a nova terminologia política usada para Angola (e não só) levou uma aparadela. Um inquérito efectuado pelo Expresso junto de automobilistas apurou que "a esmagadora maioria dos portugueses se inclina para o racionamento como melhor forma de se proceder à restrição de consumo de combustível. Foram, de cerca de 600 inquiridos, quase 400 (ou seja, aproximadamente 75 por cento) os que se pronunciaram a favor daquele método". Previsto para a primeira página, foi cortado na íntegra. Idem com a notícia sobre a reabertura da refinaria do Norte antes do prazo previsto e do carregamento de dois petroleiros portugueses no Irão e Iraque. A crise petrolífera era o tema de um dos editoriais, golpeado por três vezes.

Na pág. 2, a rubrica 'Portugal Político', não assinada mas da autoria de Marcelo Rebelo de Sousa, levou cinco golpes. "O objectivo dos novos diplomas" na área das Forças Armadas "é dar satisfação às pretensões formuladas por algumas centenas de oficiais do quadro do Exército apresentadas há semanas ao chefe do Estado, presidente do Conselho e ministros da Defesa Nacional e do Exército".

A crónica sobre a Assembleia Nacional levou dois borrões azuis, tal como uma acção de despejo no bairro camarário de S. João de Deus, no Porto. Os habitantes, quase todos ciganos, "cerraram fileiras na resistência aos agentes de despejo".

A situação no Técnico voltou à baila, a merecer quatro cortes. "A Ordem dos Engenheiros vai reunir em assembleia geral extraordinária, no próximo dia 12, com o fim de debater a situação actual no IST e analisar as suas implicações para a classe".

Do julgamento do padre Mário de Oliveira os leitores continuaram a nada saber. O pároco estava preso à guarda da DGS, que entretanto detivera o mais jovem candidato da lista da CDE de Aveiro, Mário Rodrigues, jornalista do semanário 'Independência de Águeda'. A notícia teve um corte: "A detenção foi presenciada por pessoas que passavam defronte da casa de Mário Rodrigues e o viram a ser impelido por alguns agentes para dentro de uma carrinha celular". Anos mais tarde, Mário Rodrigues viria a ser redactor do Expresso.

 

 

'Deixem-me ao menos subir às palmeiras

"Não será exibido em Moçambique o filme 'Deixem-me ao menos subir às palmeiras', realizado pelo jovem Lopes Barbosa com base no conto 'Dina', de Luís Bernardo Howana. A obra exigiu cerca de ano e meio de trabalho e um investimento que roçou os 300 contos". Courinha Ramos, o produtor, "foi 'aconselhado' por certa entidade a não submeter, sequer, o filme à censura, já que se tratava de 'matéria indesejável'". Jocosa, a notícia dava conta que o realizador "regressou à Metrópole, onde pensa dedicar-se à criação de galinhas". Nada saiu.

África do Sul

Polémica com Portugal no Brasil

A coluna 'Portugal Político' registava a estada em Lisboa do "ministro da Defesa sul-africano". Certamente que Botta não veio de férias, mas a Censura riscou a informação de que "contactou com o ministro da Defesa português".