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Expresso

O que a censura cortou

Mais dois cartoons de Sam

A secção das cartas foi uma das mais castigadas. Alçada Baptista e Carlos Pinhão também foram vítimas.

Samuel Azavey Torres de Carvalho

Sam, o criador do célebre 'Guarda Ricardo', nunca deixou de estar na mira do Exame Prévio. Os seus cartoons, divertidos mas certeiros e mordazes, publicados na página de opinião, depararam com o sistemático mau-humor e intolerância dos fiscais da opinião pública. Desde que o Expresso nasceu, 11 dos desenhos do arquitecto Samuel Torres de Carvalho foram para o lixo. Nesta semana, a contabilidade elevou-se para 13.

Infelizmente, foram muito poucas as provas da censura da edição de 5 de Maio de 1973 que se salvaram: apenas seis, incluindo os cartoons. Uma carta de Ezequiel Campos Brandão foi cortada na íntegra. Comentava a polémica sobre a actualização das rendas de casa. "Salazar pouco fez no campo de construção de casas de renda económica. Isso está ainda bem patente internacionalmente". O leitor esgrimia com dados da OCDE sobre construções económicas em 1969. "Lá está Portugal nos últimos lugares, muito abaixo da Grécia e fazendo par com a Turquia. Nos quatro para cinco anos de Governo de Marcello Caetano não houve ainda benefícios neste campo".

Golpe idêntico levou uma notícia sobre a constituição de uma comissão pró-associação no Liceu Nacional do Barreiro. Um comunicado emitido pelos estudantes apontava "as principais carências e deficiências sentidas no liceu". Aos alunos apelava-se que abandonassem "o egoísmo e inércia habituais".

A estreia do filme 'Perdido por Cem', de António-Pedro Vasconcelos, motivou um inquérito junto de várias personalidades. A resposta do jornalista Carlos Pinhão levou uma rasura. O mesmo sucedeu com António Alçada Baptista. Riscada a frase em que o ensaísta lamentava "o desastroso mito do herói, que tanto mal nos tem feito".