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Expresso

O que a censura cortou

Lista dos livros mais vendidos da quinzena

Visita do Presidente do Brasil levou uma dúzia de golpes. Não se confirma a prisão do estudante José Pacheco Pereira.

Quinzenalmente, o Expresso publicava uma tabela dos dez livros mais vendidos, a partir dos dados fornecidos por dez livrarias. O primeiro do "ranking" era 'O Caso da Capela do Rato no Supremo Tribunal Administrativo' dos advogados Salgado Zenha, Francisco Sousa Tavares, Jorge Sampaio, Vasconcelos Abreu e Vera Jardim. Em sexto lugar, surgia 'Redescoberta da França', de Urbano de Tavares Rodrigues. Os dois títulos foram suprimidos da lista de "best-sellers" - o que levou o jornal a não publicar um "ranking" falseado.

Uma das notas da secção 'Gente' também era sobre livros. "Gente quer aqui expressamente salientar o relevo que merece a linha editorial da Editora Seara Nova. Agora, depois do livro de Salgado de Matos, saiu uma obra de José Magalhães Godinho, que 'Gente' aconselha: 'Direitos, Liberdades e Garantias Individuais'. Foi cortada. O mesmo sucedeu com uma outra 'Gente', que recomendava "a leitura das mesas-redondas organizadas pela Seara Nova e pelo Notícias da Amadora". E numa antevisão sobre a estratégia da oposição democrática às eleições de Outubro, foi suprimida a passagem que admitia "o alargamento da Social-Democracia de Mário Soares" a uma frente socialista ampla.

A visita do Presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, teve larga cobertura da edição de 19 de Maio de 1973. "Pela primeira vez na história das relações entre Portugal e o Brasil, desde a independência, começam a surgir desentendimentos graves que podem ser retratados pela receptividade fria de Lisboa à chegada do Presidente Médici e, também, pela ausência de acordos ou declarações importantes durante a visita". Esta apreciação foi um dos oito cortes que sofreu a análise do jornal à visita do chefe da ditadura militar, que se demarcou da política africana de Marcelo Caetano. O delicado tema era abordado num artigo previsto para a primeira página e que foi liminarmente chumbado. O autor referia-se ao papel que Brasília poderia ter na resolução do problema ultramarino. Também um dos editoriais era dedicado à visita de Médici. Levou quatro golpes. Num deles, o editorialista lembrava que os jornais brasileiros chegaram a afirmar que "seria conveniente que o ministro" dos Estrangeiros, Rui Patrício, "precisasse as declarações (...) segundo as quais Portugal estaria disposto a conversar com os países africanos sobre as províncias ultramarinas portuguesas".

Esta temática era igualmente abordada num interessantíssimo trabalho chamado 'Como noticiar Portugal'. A ideia era mostrar o Portugal nos nossos dias, a partir das várias perguntas - aprendidas em qualquer escola de jornalismo - a que qualquer notícia deve procurar responder: onde, quando, o quê, quem, porquê, para quê, como... O trabalho não passou da rua das Gáveas. Nesta coluna, fiquemos-nos pelo quando. "O tempo em que vivemos é também tema controverso. Somos o passado? E que passado? O dos heróis ou o dos santos? O dos militares ou o dos poetas? Nun'Álvares ou a Rainha Santa Isabel? Afonso de Albuquerque ou Camões? Somos o presente? E que presente? O de Salazar? O de Marcelo Caetano? O do Mercado Comum? O do patamar planetário ou o do "orgulhosamente sós"? O da resignação, da renúncia, da submissão, ou o da revolta, da destruição, da violência, ou o da inquietação, do trabalho, da reforma? Seremos o futuro? Mas que futuro? Pluricontinental, uno e indivisível? De modelo próprio ou de figurino americano, russo ou chinês? Acreditamos na Europa, com a qual já começámos a tomar compromissos? Que são para nós o Brasil e os 'novos Brasis' de que tanto falamos?"

Destino idêntico conheceu a notícia sobre a suspensão de três estudantes do Liceu de António Nobre, do Porto. Assim, "ultrapassa a dezena o número de alunos" daquele estabelecimento "que sofreram castigos que os impediram de assistir às aulas". O reitor "desempenhou as funções de presidente da Comissão Concelhia da ANP. Actualmente, é delegado regional" da Mocidade Portuguesa. A notícia referia ainda os rumores, não confirmados, da prisão do estudante do 5º ano de Filosofia José Pacheco Pereira, "autor de duas obras sobre o movimento operário" e "tradutor de textos de Mao Tsé-tung e Engels". Ainda na área do ensino, o artigo do pedagogo Calvet de Magalhães levou quatro cortes.

O encerramento da empresa Mitel, em Castelo de Paiva, saiu com o título 'Esgotado o minério da Raiva'. A versão original era diferente. Foi obrigada a sair a segunda linha do título: '180 mineiros no desemprego'.

Prostituição em Portugal

"Vi nos últimos meses a prostituição aumentar em grande escala. Vi abrir o o Lindoso e o Taminho, o Apolo 13 e o Jamaica, etc, etc. Vi aumentar o número de raparigas. O movimento a certas horas da noite no Bairro Alto, no Intendente e no Cais do Sodré é perfeitamente significativo. Vi um dístico afixado no exterior de um bar: 'Proibida a entrada a menores de 21 anos' e no interior vi três, quatro e até dez raparigas entre os 16 e os 19 anos. Vi crescer bebés nos cafés em que as mães esperavam o cliente". Assim começava a reportagem 'Aspectos da prostituição em Portugal'. Destinado à última página, nada sobrou.

ONTEM

Em Direito e Letras, os distúrbios com os vigilantes atingiram o assistente dr. David Mourão Ferreira e o prof. Lindley Cintra. Das faculdades, passaram à própria cantina universitária, que "foi ontem novamente encerrada". O censor riscou o advérbio ontem.