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Expresso

O que a censura cortou

Discurso do Bispo do Porto

Assaltos à casa do estudante Pacheco Pereira e ao BPA de Alhos Vedros. Párocos de Macúti condenados à prisão.

Não era propriamente uma homília, mas o discurso com que o bispo do Porto abriu uma reunião do Conselho Presbiteral. O artigo, de primeira página, limitava-se a reproduzir as palavras de D. António Ferreira Gomes e levou um extenso corte: "As medidas policiais a que nos referimos parecem todas ter tido como ocasião, razão ou pretexto a comemoração do 'Dia Mundial da Paz' e instituído pelo Papa Paulo VI". O bispo, que Salazar proibira de entrar em Portugal durante dez anos, mencionava quatro casos, com relevo para a detenção, pela DGS, do padre João Maria van den Hurk, da Congregação dos Sagrados Corações, "exportado por avião para a Holanda", e da prisão, em Caxias, do padre Mário Pais de Oliveira, pároco de Macieira da Lixa.

Ainda na capa, vinha a condenação dos padres da paróquia de Macíti, na Beira (Moçambique), pelo Supremo Tribunal Militar. Os quatro golpes não pouparam o próprio texto do primeiro acórdão, exarado pelo Tribunal de Moçambique. O padre Sampaio foi condenado a 20 meses de prisão e o seu colega Fernando Marques Mendes a cinco. Se o primeiro teve a pena suspensa, o mesmo não sucedeu ao segundo, "por a haver cumprido já com prisão preventiva". "Espera-se para breve, também, o julgamento de dois sacerdotes católicos, em Lourenço Marques".

Da análise da recente carta pastoral do episcopado português saltou o parágrafo em que se lembrava que o patriarca de Lisboa, "ainda há bem pouco tempo, produziu uma nota de relevo sobre os acontecimentos da Capela do Rato. Seja como for, uma coisa é certa: a hierarquia abandonou, neste documento, a atitude colaborante, passiva ou de resignação face aos poderes governamentais, na peugada do que já vem acontecendo" com o episcopado da vizinha Espanha.

A manchete era sobre um roubo na agência do Banco Português do Atlântico em Alhos Vedros. A analogia com o lendário assalto de Palma Inácio era patente. Levou dois toques. "Se este novo golpe de que é vítima a agência de Alhos Vedros se reveste ou não de carácter político é coisa por averiguar, na medida em que os assaltantes nenhum documento deixaram que o esclareça, ao contrário do que noutros casos semelhantes (por exemplo, no assalto ao Banco da Figueira da Foz) tem acontecido".

A censura retocou uma quarta notícia da capa da edição de 26 de Maio de 1973. Era sobre a condenação, no Tribunal Plenário, de uma militante da UEC, Dália Rosa Falcato, "filha do jornalista João Falcato, redactor do 'Diário de Notícias' e chefe do gabinete do ministro da Educação Nacional".

A reforma do ensino era um dos temas mais polémicos. A esse propósito escreveu Gabriel Trindade, mas do texto de opinião nada se salvou. Uma das crónicas de cinema era sobre 'A Casa de Vidro', de Tom Gries, em torno de um guarda prisional. O crítico escreveu, mas ninguém o pôde ler: "Até porque não há milagres: cada país tem as prisões que merece! Realmente estar preso não serve de nada, não corrige ninguém".

Augusto de Carvalho, grande repórter, foi até Macau. De lá trouxe uma história a que chamou 'Macau, China e Portugal em convívio pacífico'. O texto levou 17 cortes, dos quais quatro viriam a ser levantados. Um dos que se manteve era uma frase do próprio governador, brigadeiro Nobre de Carvalho, para quem Macau "é o único lugar da comunidade lusíada onde não existe o crime contra a segurança do Estado". Outras frases riscadas: "em contrapartida, segundo fontes oficiais, não existe ali a DGS"; uma província "sob administração portuguesa"; Macau é "uma continuação étnica e cultural" da China; as escolas chinesas "não dependem do governo português, nem quanto à factura, nem quanto à fiscalização do teor do ensino".

Adepto do maoísmo era, à época, Pacheco Pereira. "Confirma-se ter sido assaltada a residência do estudante José Pacheco Pereira, aluno do 5º da Faculdade de Letras (Filosofia) e figura bastante conhecida nos meios universitários, onde goza de grande prestígio (...) José Pacheco Pereira é autor de dois livros sobre questões do movimento operário, tendo traduzido textos de Engels, Brecht e Mao". A notícia foi totalmente cortada, tal como a que aludia a um reunião de democratas em Braga, destinada a "debater as conclusões do recente Congresso de Aveiro" mas impedida pela PSP. Também radical foi o corte de uma breve sobre a "primeira reunião da Assembleia Legislativa da Guiné, sob a presidência do general Spínola".

Tal como sucedera na semana anterior, a censura voltou a rasurar a lista dos livros mais vendidos. A vítima foi o que figurava em nono lugar, 'O Vietname', de G. Chaonat e A. Bertrand, da Delfos. A lista publicada pelo jornal passava directamente do oitavo para o décimo livro (no caso, 'A Longa Revolução', de Edgar Snow). Na página internacional, não foi autorizado o título 'Greves em Espanha'. Saiu apenas "em Espanha"...

O busto de Camões

A imprensa de Moçambique noticiou que o "vice-presidente da Comissão Concelhia da ANP, sr. Willy de Abreu, havia entregue ao sr. Presidente do Conselho, em Tomar, um busto de Camões, "esculpido por um guerrilheiro e encontrado num refúgio de terroristas, no distrito moçambicano de Cabo Delgado". Mas, segundo os alunos da comissão da viagem de fim de curso do Instituto Industrial de Lourenço Marques, o referido busto foi "comprado por eles" numa casa de artesanato "e entregue ao sr. Willy de Abreu para, em nome daqueles alunos, ser oferecido ao sr. Presidente do Conselho". A notícia não saiu.

'Época'

A secção Gente contava que um tal "João Ferreira de Menezes, de 37 anos, tipógrafo, quebrou o vidro de uma das montras do nosso jornal. Perseguido, após ter cometido o inexplicável acto, foi preso por soldados da GNR e entregue à PSP". Transcrição do matutino de extrema-direita 'Época'. Foi cortada na íntegra.