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O que a censura cortou

Capela do Rato? Proibido escrever!

A manchete do primeiro número do Expresso seria sobre a vigília da capela do Rato, contra a guerra colonial. Mas a censura não deixou passar nem uma linha.

A 6 de Janeiro de 1973 o Expresso foi pela primeira vez para as bancas. A anteceder a saída, uma campanha publicitária, sob o "slogan" 'Um jornal para os que sabem ler'. Era uma advertência clara ao leitor para os estreitos limites da liberdade de informação. Entre os jornalistas e a opinião pública, interpunha-se, zelosa e omnipresente, a censura, que o regime de Marcelo Caetano rebaptizara com o púdico nome de Exame Prévio. A intervenção do 'lápis azul', sempre arbitrária e impiedosa, prolongar-se-ia por mais 15 meses - durante as primeiras 68 edições do semanário. Os coronéis da rua das Gáveas só seriam dispensados ao fim da manhã do dia 25 de Abril de 1974.

A partir desta edição, aqui daremos conta do que foram os efeitos da censura - semana a semana - na feitura do Expresso. Escusado será dizer que foi um conflito permanente e desigual. Instalada após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, a censura procurou ser o guardião supremo do regime, da moral e dos interesses pátrios. Foi contra este colosso, inimigo da inteligência e da cultura, da verdade e do pluralismo, agindo sempre sem critérios, que o Expresso teve que lidar. Sem outras armas ou recursos além da habilidade, da astúcia e da persistência, e de um permanente apego aos valores do jornalismo e da liberdade de informação.

A falta de espaço não permitiu o início desta secção na anterior edição, em que se assinalou a passagem do 35º aniversário do jornal. Razão pela qual iremos tratar nesta semana dos dois primeiros números. A partir da documentação a que foi possível ter acesso, verifica-se que foram quase trinta os textos cortados logo na estreia. No seguinte, foram um pouco menos: 'apenas' 21. O que significa, num jornal de 24 páginas, uma média de um texto por página.

Manchete cortada

Uma dezena de artigos foram mesmo cortados de alto a baixo. Um deles, em condições 'normais', seria seguramente a manchete no primeiro número. Era a notícia sobre a célebre vigília da capela do Rato, em Lisboa, na última noite do ano, para discutir a guerra colonial e assinalar o Dia Mundial da Paz. A vigília culminou com o assalto à igreja por centenas de polícias, que fizeram cerca de 70 detenções, das quais 15 foram entregues à DGS. Dos novos inquilinos de Caxias figuravam nomes hoje bem conhecidos: Nuno Teotónio Pereira, Francisco Pereira de Moura, Jorge Wemans, Luís Moita, Francisco Louçã. Recusando-se a ignorar a vigília, o jornal limitou-se a uma caixa, com a indicação que era a versão do Ministério do Interior, a única autorizada. O número seguinte voltou ao tema, com chamada de capa. Sem lhe poder dar um tratamento jornalístico, recorreu-se a um estratagema, dando na íntegra uma nota oficiosa do Governo, a nota do Patriarcado e a deliberação do Conselho de Ministros, a que juntou longos excertos de discursos de Salazar (em 1935) e de vários deputados, bem como da própria Constituição. O Exame Prévio foi compelido a tudo autorizar, mas vingou-se numa local da Gente, que revelava a sintonia entre D. António Ribeiro e o núncio apostólico na gestão da caso.

A manchete inaugural acabou por ser uma inédita sondagem sobre a participação política, segundo a qual "63% dos portugueses nunca votaram". O texto passou, mas o mesmo não sucedeu à parte do editorial que admitia a hipótese de baixar a idade de voto para os 18 anos. Saltou o último parágrafo: "Não tem o próprio Governo, por mais de uma vez, prestado a sua confiante homenagem 'à juventude que valentemente se bate em África'?" Também o editorial seguinte, dedicado à Concordata, levou dois cortes.

No número de 13 de Janeiro a manchete foi sobre um tema nada habitual: "Duzentos mil empregados de escritório querem sindicato único". Trabalho da autoria de Adriano Carvalho, foi retirada uma curta declaração do presidente do Sindicato de Lisboa, José Brás Rodrigues.

Outros cortes integrais vitimaram uma notícia sobre as comemorações do sexto centenário da Aliança luso-britânica, uma pesquisa sobre a diminuição do estatuto do funcionalismo público, e um artigo de opinião (não assinado), com o título 'sensação instabilidade'.

Atenção à secção 'Gente'

Aos cortes pontuais não escapou nenhuma secção: desde a economia (incluindo a própria crónica bolsista) e o sindicalismo, ao desporto. No internacional, por exemplo, Joaquim Letria viu ceifado o título da sua crónica de Londres: 'Injectar democracia eis a questão'. No "ranking" dos livros mais vendidos, foi apagada a referência ao 'Dinossauro Excelentíssimo', de José Cardoso Pires, e a Luuanda, de Luandino Vieira.

Duas das secções que o Exame Prévio mais coloriu de azul foram as Cartas e a Gente. Na primeira, foram oito os textos cortados - de alto a baixo (ver em 'Bico Calado'), ou com intervenções cirúrgicas. Na missiva do leitor Augusto Sousa Marques, de Lisboa, de que foi expurgada a passagem "o que devemos é carregar, até ao fundo, o pedal da Liberdade". Igual tratamento teve a nota da redacção: "Esperemos que o pedal funcione".

A inovadora secção Gente despertou enorme desconfiança. No primeiro número, por exemplo, foi chumbada uma local sobre a possível entrada do banqueiro Jorge de Brito nos negócios dos casinos na Madeira. O mesmo sucedeu, no segundo, à iminente nomeação do ex-ministro Dias Rosas para governador do Banco Nacional Ultramarino. O jornal reagiu ao arbítrio e publicou, sem mais, uma fotografia de Dias Rosas - para bom entendedor... Nesta edição, a Gente surgiu assinada por 'Tó-Patuto'. Mas o que os censores toparam foi o alcance da local 'Universidade': "Como é sabido, o quadro do pessoal menor da Faculdade de Direito de Lisboa foi, em meados do ano anterior, enriquecido com uma leva de novos funcionários". Era uma referência à contratação dos famosos 'gorilas', polícias disfarçados de contínuos. Claro que não passou...