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Expresso

O Cantinho do Smith

O melhor cão do mundo

Não é raro um dono dizer que o seu cão é o melhor do mundo. São anos de um companheirismo muito especial que só deveria terminar quando o amigo de quatro patas tem de partir. O Smith é disso exemplo e por isso este "cantinho" tem o seu nome. Muitos leitores terão certamente testemunhos idênticos com os seus animais de estimação que podem partilhar, enviando o seu contributo para cantinhosmith@expresso.pt

(Dizem-me que este é um texto demasiado longo para a Internet. Apenas posso dizer que é demasiado curto para contar a história do melhor cão do mundo.)

"(Sei que andas por aí, oiço os teus passos em certas noites, quando me esqueço e fecho as portas começas a raspar devagarinho, às vezes rosnas, posso mesmo jurar que já te ouvi a uivar, cá em casa dizem que é o vento, eu sei que és tu, os cães também regressam, sei muito bem que andas por aí.)", Manuel Alegre, in "Cão como nós"

Perdi o meu melhor amigo nas vésperas do Natal passado. A caminho dos 13 anos, estava já muito velho e, pior, doente. Só isso me ajuda a encarar, com uma espécie de conformação, esta separação indesejada. A 18 de Dezembro de 2007 não terá resistido a mais uma dilatação de estômago. Na manhã desse dia, quando saía para trabalhar, assaltou-me a dúvida de que ele não estaria bem. "Anda cá à dona", disse-lhe para avaliar o seu comportamento. Avançou na minha direcção, decidido, a abanar a cauda, cabeça erguida e a olhar-me nos olhos. Pensei, com alívio, "estás bem", fiz-lhe uma festa, e despedi-me, como sempre, em voz alta. Nunca mais o vi.

O Smith vivia comigo desde os dois meses e meio de vida. Sempre quis um pastor alemão e, finalmente, tinha o espaço e os meios. Quando o fui buscar ao criador, a ninhada estava ainda praticamente completa. Lembro-me que os cachorros se mantinham tão unidos que era difícil distingui-los. O que depois se veio a chamar Smith - em honra ao meu grupo de rock preferido, os Aerosmith - e um outro pastorinho cativaram-me a atenção. O outro tinha um ar mais vivaço, mais desembaraçado. O Smith mal levantava os olhos, tímido, assustado. Hesitei alguns minutos até que o olhar do Smith me convenceu. Como havia de me convencer toda a vida - mesmo quando, porque a educação e o treino de um cão assim o exigem, lhe dizia "não", o admoestava com uma sacudidela de jornal, ou, punição suprema para ele, lhe chamava zangada (ou, pelo menos, a tentar parecê-lo), "cão mau, cão feio".

O olhar constituiu, de facto, um dos aspectos nucleares da comunicação entre mim e o meu pastor. Mas não só. Ele sabia bem mostrar-me como se sentia: se estava amuado, deitava-se de costas viradas para mim ou, pura e simplesmente, ia-se embora; se estava assustado (por exemplo, com as trovoadas) fincava-se de tal modo em cima dos sofás que nada o fazia descer; se não queria comer, ficava tempos sem fim apenas a mirar a comida ou desatava a beber água; se tinha medo que eu não o levasse para férias, punha-se numa agitação descontrolada e gemia com tal intensidade que parecia estar a chorar (até comecei a evitar que ele me visse a fazer malas...); quando eu, de manhã, abria a portada do meu quarto, ele cumprimentava-me sempre com uma espécie de cantoria...

E, como qualquer cão que se preze, era um fiteiro. Em duas situações concretas esmerava-se o mais possível: quando tinha de enfrentar o dono, mais severo e menos afectivo, ou tomar comprimidos. Se o dono lhe dava uma ordem que não lhe agradava fixava-me insistentemente na esperança de eu a contrariar, ou se de um ralhete se tratava, escondia-se atrás de mim esperando assim escapar à admoestação. Quando tinha de tomar comprimidos, fazia de tudo para nos enganar - e muitas vezes com êxito -, sendo a táctica mais apurada a de fingir que os tinha engolido mas mantendo-os escondidos na boca para depois os deitar fora.

Era muito inteligente este meu cão: só lhe faltava mesmo falar e ocasiões houve em que parecia mesmo que ia abrir a boca e expressar-se na linguagem dos humanos, porque na canina era exímio. Muitas foram as atitudes, os tiques, os pormenores através dos quais aprendemos, durante mais de 12 anos, a dizer um ao outro o que queríamos. Era uma relação de grande cumplicidade, criada e desenvolvida durante os anos que vivemos só os dois.

Partilhámos a vida como companheiros que éramos, sem segredos, conhecedores dos estados de alma e sentimentos um do outro. Nem de outra forma podia ser: como esconder a verdade a um cão tão dedicado e sensível como era o meu pastor? Ele tudo pressentia, parecia mestre na adivinhação. Era quase absurdamente linear o modo como as coisas se passavam: se eu estava triste, o Smith também entristecia; se eu estava doente, o Smith também adoecia; e assim por diante. Embora não de forma tão apurada, também eu, por vezes, tinha pressentimentos: passei o seu último dia de vida com um estranho mal-estar, um incómodo que não consegui definir...

A dedicação do Smith não tinha limites. Espero ter sabido corresponder. Ele era um membro da família de pleno direito e, como tal, muita coisa era decidida em sua função, desde as casas onde morámos (cheguei a mudar-me para perto dos meus pais para o poder deixar lá durante o dia e evitar que ele ficasse muitas horas sozinho) a planos de férias que o incluíam. Até o primeiro acrescento à matilha teve como objectivo principal dar ao Smith um companheiro. Se bem que havia um reverso da medalha: quando chegou o cocker, o Steve, o Smith teve de aprender, ao fim de sete anos como cão único, a partilhar tudo com um igual, não só espaço e brinquedos, mas desde logo a atenção e os afectos da dona.

Ele, porém, conformava-se com tudo o que a dona queria. E foi aceitando os outros membros da matilha - depois do cocker chegou um labrador, o Scott, e, finalmente, uma rafeira do Alentejo, a Sheila. Com cada um deles estabeleceu relações diferentes, desde um grande companheirismo com o Steve, depois substituído por uma indisfarçada preferência pelo Scott, a uma certa animosidade relativamente à Sheila - mas nunca a desafiou ostensivamente, muito menos na minha presença. Também é certo que manteve sempre os seus privilégios de primogénito e, depois, de sénior.

E como sénior foram-se multiplicando os traços de velhice (e neles fui também vendo o meu próprio envelhecimento): o pelo embranqueceu, os olhos ficaram baços, as patas traseiras fraquejaram inexoravelmente... Multiplicaram-se também os tratamentos, as operações, as corridas para hospitais veterinários... Ele, como sempre, tudo aceitava. Bastava eu dizer-lhe que assim tinha de ser. Cão bom!

Disseram-me, muitas vezes, que eu tratava o Smith como uma pessoa e não como um cão. Não é verdade. Não o tratava nem como uma pessoa nem como um cão. Tratava-o apenas como o ser especialíssimo que era, garantidamente o mais fiel e leal com o qual me cruzarei toda a minha vida. O Smith ensinou-me muito e deu-me tudo, deu-me muito mais do que eu alguma vez lhe consegui dar. Foi um privilégio ter vivido com o Smith. É uma dor estar sem ele.

Apenas sei que um dia outro pastor alemão (que a minha afilhada já baptizou de Smith Júnior) virá fazer parte da família.

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