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Expresso

O Cantinho do Smith

A cadela que não ladrava

Chegou já adulta e triste e tudo apontava para que fosse muda. Enfrentou a rejeição dos machos mas quando vagou o lugar de líder da matilha, esta rafeira do Alentejo lutou por ele e conquistou-o.

Eu e a Sheila partilhamos algumas características únicas na nossa matilha: somos as únicas "meninas" da casa, somos as duas do signo de Capricórnio (ela faz hoje, 28 de Dezembro, seis anos, depois de amanhã serei eu a comemorar o aniversário) e ambas comandamos os respectivos territórios (ela das portas de casa para fora, eu do lado de dentro). Mas esta rafeira do Alentejo nem sempre foi rainha e senhora dos domínios atribuídos cá em casa aos canídeos, nem demonstrava sequer ter qualquer qualidade para vir a ser uma líder incontestada. Antes pelo contrário.

A Sheila chegou à nossa família com o objectivo de ser um cão de guarda em casa dos meus sogros. Foi oferecida pelo criador, teria já um ano de idade, porque, explicou ele, não cumpria um requisito para entrar em concursos. Em casa dos meus sogros havia, na altura, outros dois cães, e a cadela, por precaução (até porque sendo tão jovem, não estava esterilizada), foi mantida à parte. Como demonstrava uma enorme timidez, esse hábito manteve-se. E, como se comprovou mais tarde, entrou num círculo vicioso: era tímida porque não convivia e não convivia porque era tímida.

Pior: não ladrava. Aliás, nunca ladrou durante os cerca de dois anos que ali esteve e toda a gente se foi convencendo de que era muda. O que a tornava frágil e incapaz de desempenhar a missão de cadela de guarda. Um motivo de aborrecimento para os meus sogros que tinham visto nela o garante de tranquilidade e de segurança necessários numa casa de campo.

Quando ia ver a Sheila ao seu canil ficava sempre com o coração apertado, de tão carente e assustadiça, mas também extremamente meiga que ela era. Insistia então com a família de que ela precisava de outro espaço, etc. Com nenhum êxito durante cerca de dois anos - ali, na aldeia, os cães ou têm uma função ou estão nos seus canis. Mas, como "água mole em pedra dura tanto bate até que fura", um dia o meu sogro decidiu criar um grande espaço comum para os cães estarem em liberdade.

O destino seguinte da Sheila foi ser esterilizada para poder conviver, sem problemas, com os machos. Mas o facto de ser retirada do seu habitat expôs ainda mais o seu estado de espírito: mais do que triste, estava deprimida, e por isso já não se alimentava convenientemente - facto que ainda não havia sido detectado por baixo da montanha de pelo característica dos rafeiros do Alentejo. Percebi que era necessário segui-la de perto. Temia que apesar de ir ter outra liberdade tal pudesse não ser já suficiente para ela recuperar. E dado que, aparentemente, era muda, nunca iria ser uma cadela de guarda.

Resolvemos levá-la para nossa casa e correr o risco de a inserir na nossa matilha, liderada pelo pastor alemão Smith, e que incluía o cocker Steve e o labrador Scott. Não foi fácil. Principalmente porque ela era adulta, tinha já três anos e meio, era de grande porte, fêmea, esquiva... enfim, tudo concorria para a integração ser complexa.

Passo simbólico para fazer dela um membro da família foi rebaptizá-la: na verdade, ela nunca deu mostras de reconhecer o seu primeiro nome (Nikita) e por isso, podíamos começar do zero, com um nome iniciado pela letra "S", como é praxe nos nossos amigos de quatro patas. E assim, "nasceu" a Sheila.

Mas os nossos cães pura e simplesmente não gostavam dela e apenas fingiam aceitá-la. Até o Smith, sempre disponível para tudo o que os donos queriam, a rejeitava, rosnando-lhe baixinho, à socapa... também é certo que ela cometeu o erro de, quando se começou a ambientar, escolher precisamente o lugar do Smith no canil. E as relações deles ficaram definitivamente azedadas.

Com muita paciência, fomos tentando controlar e equilibrar esta matilha, desestabilizada pelo seu novo elemento. Cedo, porém, chegou a primeira grande alegria: duas, três semanas após ter chegado ao novo lar a Sheila... ladrou. E não ladrou apenas uma, duas ou três vezes, não ladrou sequer de vez em quando... Desatou a ladrar ininterruptamente, ao ponto de procurarmos aconselhamento e soluções para disciplinar o "berreiro". Foram noites sem conta a descer até ao quintal para ensinar boas maneiras à rafeira.

Aprendeu depressa, como, aliás, foi acontecendo com tudo. Uma das coisas que mais nos espantou - e que nunca se passou com nenhum dos outros cães, apesar de viverem há anos connosco - foi ela rapidamente reconhecer o barulho do motor dos nossos carros, não ladrando, nem sequer aparecendo ao portão quando é um de nós a chegar.

Cerca de um ano e meio depois de a Sheila vir morar connosco, sofremos a perda do Smith, já com 12 anos. Foi há um ano e a matilha voltou a ficar completamente destabilizada: o Steve, agora o mais velho, a acusar a perda do amigo de tantos anos, o Scott, o mais novo, e a Sheila a lutarem pela liderança... Seguiram-se dois, três meses de escaramuças, mais ou menos graves, entre os dois.

Sempre tão reservada em vida do Smith, com a noção absoluta de que ele era o líder, a Sheila começou a querer impor-se. Durante algum tempo não percebemos quem iria sair vencedor, houve alturas em que até pareceu que seria o labrador (apesar de ser um ano e quatro meses mais novo do que ela) mas, no seu estilo tranquilo e com uso q.b. da força quando tal foi necessário, a Sheila submeteu o Scott e impôs-se definitivamente.

Por agora, os machos respeitam-na. Talvez um dia conquiste a sua amizade. Como já provou, é cadela para isso e muito mais. Parabéns Sheila!