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Expresso

Como os EUA seguiram o 28 de Setembro

X – As instruções de Kissinger

O III Governo Provisório toma posse logo a 1 de Outubro. É praticamente igual ao seu antecessor; já que apenas foram afastados os ministros da Defesa e Comunicação Social, Firmino Miguel e Sanches Osório, ambos militares  e muito próximos de Spínola.

Cada vez mais preocupado com “o ritmo das mudanças políticas em Portugal”, Henry Kissinger envia no mesmo dia uma mensagem secreta ao seu embaixador em Lisboa. Instrui Scott no sentido de pedir uma audiência urgente a Costa Gomes, para lhe comunicar que a Administração Ford “segue atentamente” a situação política e que “já está apreensiva com a presença de comunistas no Governo”. “Novos relatos de uma rápida viragem para a esquerda não são tranquilizadores”. Kissinger ordena ainda a Scott para pedir a opinião do novo Presidente sobre “os recentes acontecimentos em Portugal, particularmente no que respeita ao papel de Portugal na NATO”.

Absolutamente consciente da gravidade da situação, Costa Gomes não perde tempo e recebe no próprio dia o embaixador Scott, que se faz acompanhar de Post. A audiência inicia-se às 16 horas e prolonga-se por 45 minutos. O novo presidente reafirma o compromisso de Portugal com a NATO. Puxa mesmo pelos galões e lembra que “foi o primeiro português” a trabalhar na NATO, em 1958, e que “a sua actividade e entusiasmo pela organização nunca enfraqueceram”. Scott transmite as preocupações e avisos recebidos de Kissinger. Costa Gomes sossega os diplomatas quanto à “influência” do PCP no país, assegura que “no Governo o único comunista é Cunhal” e “nega especificamente que o primeiro-ministro seja comunista”. Quanto aos líderes do MFA, confia em que “nenhum deles pertenceria ao PCP”. Esta afirmação leva Scott a intercalar um comentário no respectivo telegrama: “Na minha opinião, isso estava muito longe de ser sincero, mas eu transmito exactamente o que ele disse”. Para Gomes, “a primeira prioridade” da sua administração é disciplinar os media, “de modo a pôr fim ao seu pendor esquerdista”, especialmente na rádio e imprensa.

Num balanço à audiência, num tom tranquilizador, os diplomatas americanos dizem a Kissinger que Costa Gomes respondeu de forma “franca e satisfatória”.