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Expresso

Como os EUA seguiram o 28 de Setembro

III – Apelo à “maioria silenciosa”

A independência da Guiné-Bissau é reconhecida oficialmente a 10 de Setembro. Spínola, que estivera à frente da Guiné entre 1968 e 1973, sente que o acordo celebrado com o anterior inimigo, o PAIGC, não deixa de ser uma derrota pessoal. A que se soma o seu visível descontentamento com o rumo seguido na descolonização de Moçambique, durante as negociações com a FRELIMO.

No discurso oficial sobre a Guiné fala sobretudo de Portugal, para apelar ao que designa de “a maioria silenciosa do povo português”, que terá de “despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se digladiam na sombra”. É o retomar de uma expressão já utilizada por Spínola e anteriormente pelo primeiro-ministro Palma Carlos – e de que já antes se servira Richard Nixon na campanha com que se guindou à Presidência da República, em 1968, no auge da contestação à guerra do Vietname. Em resposta ou em consonância com o apelo de Spínola, realiza-se uma reunião destinada a preparar uma tomada de posição pública, através de uma grande manifestação.

A 11, a embaixada dá conta da “formação para muito breve de uma nova coligação de direita”, a partir de cinco pequenos partidos extremistas, liderada pelo general Venâncio Deslandes, muito conotado com o salazarismo. A informação parte de Camilo de Mendonça, um dos principais dirigentes da extinta Acção Nacional Popular, o partido único da ditadura. Na conversa com um diplomata americano, Mendonça antevê mesmo “um golpe em Portugal dentro de um mês, para destituir o primeiro-ministro Gonçalves e os esquerdistas no Governo”.

Por sua vez, o cônsul no Porto reporta, a 13, um movimento contra-revolucionário que estaria “a ser planeado por Galvão de Melo, Kaúlza de Arriaga, industriais, banqueiros e outros”. O conselho de ministros de 17 decide ilegalizar o Partido Nacionalista Português, claramente conotado com a extrema-direita. 

Descontente com o rumo dos acontecimentos, particularmente com a descolonização, Spínola procura reforçar o seu poder. Num almoço, realizado a 18, Nunes Barata, adjunto diplomático do presidente, explica a um funcionário da embaixada que Spínola “decidiu desempenhar um papel mais directo e agressivo no processo de descolonização”. Com os casos da Guiné e Moçambique praticamente encerrados, as atenções voltam-se para Angola, a jóia da coroa imperial, onde a Presidência julga que Portugal “terá mais tempo para negociar”.