Siga-nos

Perfil

Expresso

Como os EUA seguiram o 28 de Setembro

II – Contam-se espingardas

A crise volta a ser o prato forte de uma conversa de duas horas de Richard Post com o major Vítor Alves. Um telegrama de 22 de Agosto sintetiza a conversa com aquele membro do Conselho de Estado e figura proeminente do MFA, muito crítico de Spínola. Correm rumores sobre a eventual resignação do Presidente da República; Alves duvida e admite que tal boato tenha sido “espalhado por pessoas próximas de Spínola”. Confirma que a continuidade da comissão coordenadora do MFA, enquanto estrutura permanente, está a ser discutida entre os militares.

Na opinião da embaixada, a partir da conversa com Vítor Alves e com outras fontes não especificadas, “o sentimento a favor da manutenção de Spínola como Presidente é dominante”. Seja como for, “a tensão irá continuar, entre Spínola, “habituado a ser obedecido” pelos seus subordinados, e o MFA, comprometido com o que entende ser “a sua obrigação para com o povo português”.

O cenário de um confronto armado é abordada de forma taxativa, a 3 de Setembro, no decorrer de um jantar entre um dos vários adidos de defesa norte-americanos e o general Diogo Neto. O chefe do Estado-Maior da Força Aérea e membro da JSN fala de um “fosso sempre crescente entre” a ala esquerda do MFA e a “facção Spínola-Costa Gomes”, a que ele pertence. Neto confessa que o seu grupo já está a contar espingardas. Conta designadamente com “a jurada lealdade dos pára-quedistas” e com o apoio da Força Aérea; além disso, “irão colocar em Oeiras as tropas leais a Spínola que voltarem da Guiné-Bissau” e “estacionarão seis aviões G-91S e um esquadrão de helicópteros na base aérea do Montijo”.

Muito ligado ao Presidente, Diogo Neto diz que “a estratégia do grupo de Spínola baseia-se num forte sinal de apoio por parte dos EUA”. Alerta o adido de defesa para o facto de o seu “bloco só ter dois ou três meses, no máximo”, até resistir à “pressão da ala esquerda do MFA liderada pelo primeiro-ministro, brigadeiro Vasco Gonçalves”. Nessa altura, o poder deslocar-se-á para as esquerdas, capazes de garantir a Portugal ajuda “por parte da URSS e de outros países comunistas”. Referindo-se à renegociação do acordo sobre a utilização da base açoriana das Lajes, o general sugere que este “deveria incluir a o uso das instalações de Cabo Verde para impedir que possam cair nas mãos da URSS”. Comentando as inesperadas afirmações do membro da Junta, Stuart Scott refere, no telegrama enviado para a Secretaria de Estado, que ele tem “ideias muito claras sobre como preservar uma democracia de tipo ocidental em Portugal”. Sem deixar de notar que “ele ultrapassou todos os impedimentos para fazer chegar a sua mensagem ao Governo americano”.