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Expresso

Como os EUA seguiram o 28 de Setembro

I – O fantasma do Vietname

A hipótese de uma intervenção estrangeira já fora encarada de forma aberta no início do Verão. Com o I Governo Provisório, presidido por Adelino da Palma Carlos, à beira do fim devido a uma nebulosa luta pelo poder entre Spínola e a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA), o general Galvão de Melo avista-se a 1 de Julho com o diplomata norte-americano Richard Post. Cônsul dos EUA em Luanda entre 1969 e 1972, foi então colocado como vice-chefe da embaixada em Lisboa.

A partir de Janeiro de 1974, passou a trabalhar com o embaixador Stuart Scott, um advogado de Nova Iorque de 68 anos, sem qualquer experiência diplomática e colocado em Lisboa por ter sido apoiante da candidatura presidencial de Richard Nixon. Nesse encontro, Galvão de Melo, um dos sete membros da Junta de Salvação Nacional (JSN), descreve a situação política como “extremamente delicada”. No confronto entre os dois grandes blocos geo-estratégicos, é preciso que “os Estados Unidos dêem um sinal ao mais alto nível à União Soviética de que Portugal pertence à sua esfera de influência e que a URSS deve tirar as mãos de Portugal”. Galvão de Melo pede a Post um forte apoio americano. No plano económico e político, mas também na área militar. “Ele acreditava que era importante para o regime português saber que os EUA estariam dispostos a intervir, fisicamente se necessário” – escreve o diplomata”. Cauteloso, Post responde que, “após o Vietname, é altamente improvável uma intervenção dos EUA em qualquer parte do mundo”. Galvão de Melo declara, com ênfase, que “perante uma escolha entre uma ditadura militar e o caos, não há dúvida que o regime teria de optar pela ditadura militar”. O general sublinha “estar a levantar estes assuntos a um nível oficial”, ao que Post replica que irá obviamente “transmitir o teor da conversa”.