Siga-nos

Perfil

Expresso

Remodelação no Governo

Nova ministra foi acusada de negligência no contrato do Amadora-Sintra

Ex-presidente da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, Ana Jorge foi acusada de lesar o património público por falta de fiscalização ao 'hospital dos Mello'. É contra o encerramento de SAPs mas acredita na reforma em curso

Cristina Bernardo Silva e Vera Lúcia Arreigoso

Enquanto presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo - função que desempenhou entre 1997 e 2000 - Ana Jorge foi acusada pelo Ministério Público de ter efectuado pagamentos indevidos à administração daquela unidade. Segundo a acusação, só Ana Jorge teria de restituir mais de 3,5 milhões de euros transferidos para o Grupo Mello. Foram ainda acusadas no mesmo processo mais 25 pessoas. Em Julho do ano passado, o Tribunal de Contas absolveu todos os envolvidos.

A nova ministra da Saúde, Ana Maria Teodoro Jorge, disse ao Expresso que "ainda é cedo para fazer declarações" mas já admitiu que acredita na reforma em curso e no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Contudo, em Setembro, na qualidade de presidente da Assembleia Municipal da Lourinhã, criticou o encerramento do Serviço de Atendimento Permanente (SAP) local no período nocturno.

Quem trabalhou com esta pediatra - que actualmente dirigia o Serviço de Pediatria do Hospital Garcia de Orta, em Almada - afirma que é uma defensora acérrima do SNS, mas o seu nome está associado ao polémico processo de gestão privada do Hospital Amadora-Sintra.

Aos 58 anos, a médica tem fama de ser uma pessoa de trato fácil. "É muito conhecedora e tranquila. Tem ideias muito claras e defenderá o SNS. O facto de ser muito agradável é uma vantagem para o diálogo necessário no momento em curso", disse ao Expresso a presidente da Comissão Parlamentar de Saúde, Maria de Belém, que tutelava a pasta quando Ana Jorge esteve à frente da ARS.

Na sua passagem pela gestão da Saúde em Lisboa, a futura ministra destacou-se na reorganização das Urgências pediátricas nos hospitais, que reservou para as situações verdadeiramente graves. Ana Jorge quis que os centros de saúde fossem o primeiro ponto de assistência no sistema. Na prática, a clínica dava importância à triagem dos SAP, precisamente o primeiro elo da corrente a ser quebrado pelo demissionário Correia de Campos. Esteve ainda na origem da linha telefónica pediátrica "Dói-dói, trim-trim". Em 2005 chegou a ser sondada para ocupar o cargo de governadora civil de Lisboa, o que acabou por não acontecer.

Com uma actividade muito ligada à criança, a futura ministra não tem filiação política conhecida mas consta da lista da Comissão de Honra de Manuel Alegre - um dos socialistas mais ferozes nas criticas à política de Correia de Campos - nas últimas presidenciais. Hoje, Alegre disse que "o primeiro-ministro compreendeu as consequências negativas" da política de Saúde e manifestou a esperança de que esta remodelação seja "política e não pessoal". Na mesma linha, António Arnaut (considerado o pai' do SNS) afirmou ao Expresso que Sócrates foi "sensível ao clamor nacional e à revolta popular" contra o encerramento de unidades de saúde, reconhecendo como "justas as reinvindicações das populações". Arnaut alerta que a futura ministra terá de "recuar em alguns aspectos" e deixa uma palavra de consolo a Correia de Campos: "Tem razão em muitas reformas, simplesmente não soube explicá-las e agiu com arrogância".