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Expresso

Narcotráfico na Guiné-Bissau

Mais acusações contra os militares

Um activista dos direitos humanos guineense que implicou a hierarquia militar no narcotráfico está refugiado na sede da ONU.

Fernando Jorge Pereira

O activista guineense dos direitos humanos Mário Sá Gomes, refugiado há cerca de uma semana nas instalações da ONU em Bissau, poderá sair para o estrangeiro nos próximos dias, mas antes terá de prestar declarações à Justiça. Esta é a solução encontrada para o caso Sá Gomes, um dirigente associativo de 36 anos que desencadeou a ira das chefias militares ao afirmar, em Julho, que o narcotráfico só pode ser combatido com êxito se houver "uma mudança profunda do comando das forças de Defesa e Segurança e uma reforma judicial".

Sá Gomes apelou ao Presidente da República que exonere o chefe do Estado-Maior General e o resto da cúpula castrense, que terá "perdido o controlo das Forças Armadas". Um porta-voz militar desmentiu as afirmações do dirigente, exigiu a apresentação de provas e admitiu que estas acusações podem "criar novos conflitos". Com medo de represálias, Sá Gomes andou escondido quatro semanas antes de se refugiar na ONU.

Desde 2005 que há fortes suspeitas de que redes de narcotraficantes sul-americanos beneficiam de cumplicidades locais. Em Abril, dois militares foram detidos numa viatura que transportava mais de 600 quilos de cocaína e devem ser julgados nos próximos meses. Mas, até hoje, ninguém teve a ousadia de apontar o dedo aos militares.

Mário Sá Gomes já esteve na mira dos militares quando levou a cabo, em 2006, uma avaliação do papel das Forças Armadas guineenses no conflito contra os independentistas do Casamansa (província meridional do Senegal, que faz fronteira com o norte da Guiné). O relatório aponta para a possibilidade de tráfico de armas e de execução extrajudicial de civis suspeitos de colaborar com independentistas. A situação de Sá Gomes complicou-se, já que o Ministério Público, apesar de não ter recebido qualquer queixa contra o activista, emitiu um mandado de captura, justificado com "razões de ordem pública e de segurança". E embargou a sua viagem ao exterior.

O representante do secretário-geral da ONU em Bissau, o nigeriano Shola Omoregie, tem-se reunido com os militares e com as autoridades judiciais. Fontes que acompanham o processo garantiram que Sá Gomes deverá ir para o exílio, mas o embargo à sua saída só será levantado após ele ser ouvido pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público. O activista confirmou ao Expresso estar disposto a submeter-se a esta formalidade. "Querem silenciar-me e por isso vão pôr-me lá fora", disse.