Siga-nos

Perfil

Expresso

Eleições no Reino Unido

Reino Unido: A polémica do voto táctico

Enquanto os partidos queimam os últimos cartuchos, alguns trabalhistas pedem aos eleitores que apoiem quem tiver mais hipóteses de derrotar os conservadores, mesmo que nalguns círculos isso signifique votar nos liberais.

Pedro Cordeiro, enviado a Londres (www.expresso.pt)

A dois dias da ida às urnas, os partidos britânicos intensificam o ritmo da campanha. Com as sondagens a prever a vitória do Partido Conservador, o seu líder, David Cameron, anunciou que fará campanha continuamente, 24 horas por dia, até às eleições. Ou seja, entre ontem à noite e o dia de amanhã não há descanso.

O que motiva a correria é o facto de os estudos de opinião colocarem os conservadores em primeiro lugar, mas sem maioria absoluta. David Cameron acredita que pode alcançá-la concentrando-se nas circunscrições "marginais", isto é, aquelas actualmente representadas por um deputado de outro partido, mas em que a diferença percentual foi escassa.

Foi a propósito desses círculos eleitorais que nasceu a última controvérsia dentro do principal rival dos tories, o Partido Trabalhista do primeiro-ministro Gordon Brown. A vontade de evitar uma maioria absoluta conservadora é tão grande que alguns dirigentes chegam a apelar ao voto nos Liberais Democratas nas circunscrições em que estes tenham mais hipóteses de derrotar a formação de David Cameron, esperando retribuição semelhante.

O ministro da Educação, Ed Balls, foi o mais explícito: pediu aos libdems que "mordam o lábio" e votem nos trabalhistas e reconheceu que os seus camaradas deverão fazer o mesmo. "Quero manter os tories fora do poder", explicou.

Apelo ao voto táctico

O voto táctico sempre existiu nas eleições inglesas, precisamente por causa dos círculos uninominais, em que qualquer voto num candidato perdedor é desperdiçado. Tessa Jowell, ministra dos Jogos Olímpicos e de Londres, aplaudiu hoje, numa conferência de imprensa, o conselho dado aos leitores pelo jornal "Daily Mirror", ferozmente trabalhista: "Votem tacticamente". Na mesma sessão, a que o Expresso assistiu, o ministro das Finanças, Alistair Darling, considerou "melhor esperar pelos resultados".

Gordon Brown, no entanto, recusa o voto táctico, dizendo lutar pela vitória. O seu antecessor, Tony Blair, afirmou ao diário "The Guardian", numa entrevista publicada esta quarta-feira, que os eleitores devem "votar naqueles em quem acreditam".

Já o líder liberal democrata Nick Clegg pede aos eleitores trabalhistas desiludidos que dêem uma hipótese ao seu partido: "Se o fizerem, não estarão a trair os trabalhistas. Eles é que vos traíram nestes 13 anos". Mas este discurso de Nick Clegg ainda suscita dúvidas. "Fico confusa, não percebo porque havemos de apoiar este senhor maravilhoso que apareceu há três semanas e de quem nunca ouvira falar", afirma uma eleitora galesa ouvida pelo Expresso, que garante apoiar o Labour "há mais de 50 anos".

Aliança é a única esperança de Brown

Ninguém sabe o que sucederá se David Cameron não chegar à soma mágica de 326 deputados. A convenção - o Reino Unido não tem uma Constituição escrita - é a rainha escolher para primeiro-ministro "quem tiver melhores hipóteses de formar uma maioria parlamentar", mas o primeiro a exercer o direito de tentar formar essa maioria será, na ausência de uma maioria absoluta de qualquer partido, o chefe do Governo em funções.

Os conservadores rejeitam a hipótese de Gordon Brown se manter no poder se ficar em terceiro lugar. É, no entanto, teoricamente possível os trabalhistas ficarem em segundo ou terceiro e, ainda assim, terem mais deputados do que os conservadores.

A equipa de Gordon Brown bate-se por esse cenário, que as últimas sondagens não encorajam (embora o barómetro de hoje do tablóide "The Sun" trouxesse de volta essa hipótese, que já há alguns dias não ocorria). A solução poderia passar por uma coligação com os libdems. Num debate organizado pelo "The Guardian", ontem à tarde, a colunista política Polly Toynbee disse acreditar que "essa hipótese, caso viesse no boletim de voto, seria a escolha da maioria".

O líder libdem, Nick Clegg, já afirmou que uma condição inegociável seria o afastamento do primeiro-ministro. Uma eleitora trabalhista descontente, com quem o Expresso contactou, diagnostica o problema de Gordon Brown: "Tem talento, mas sente-se desconfortável até na sua própria pele. Foi um bom ministro das Finanças, mas um primeiro-ministro trágico".

"É o rei da triangulação, dizendo uma coisa e fazendo outra", comenta por seu turno o jornalista John Harris, do diário "The Guardian", que este ano, pela primeira vez, apoia os liberais. Se os resultados de Gordon Brown confirmarem os piores receios, nem a aliança com Nick Clegg poderá salvá-lo.

Este último, querendo manter as suas opções em aberto, tem dado sinais de que poderia coligar-se aos conservadores. Que, por sua vez, admitem governar em minoria, até porque são contra a reforma do sistema eleitoral que Nick Clegg nunca dispensaria.