Siga-nos

Perfil

Expresso

Eleições no Reino Unido

Clegg foi a desilusão da noite, mas é para ele que todos olham

Com apenas 23% dos votos, os liberais democratas de Nick Clegg ficaram aquém das expectativas. Mas a nomeação do próximo primeiro-ministro do Reino Unido passa por eles.

Pedro Cordeiro, enviado a Londres (www.expresso.pt)

A noite mais decepcionante da vida política de Nick Clegg pode, apesar de tudo, abrir-lhe as portas do poder. A vitória dos conservadores, sem maioria absoluta, faz do líder dos Liberais Democratas (terceiro maior partido) a força política de que depende a balança do poder. Passados 36 anos, o Reino Unido volta a encarar o temido hung Parliament (sem maioria). A última situação semelhante, em 1974, levou a novas eleições passados oito meses.

Apesar da vitória conservadora (36%, contra 28% dos trabalhistas e 23% dos libdems), é impossível dizer quem vai ser o próximo primeiro-ministro. David Cameron ganhou e afirmou que os números saídos das urnas retiram o mandado de governação aos trabalhistas, no poder há 13 anos.

David Cameron não reivindicou, contudo, o cargo de chefe do próximo Governo. Tudo porque a Constituição britânica - convencionada, não escrita - determina que o primeiro-ministro cessante não é forçado a demitir-se a menos que outro partido tenha maioria absoluta. Sem isso, Gordon Brown tem o direito a ser o primeiro a tentar uma coligação. E já defendeu ser esse o seu "dever perante o país". "Foi uma longa noite, mas mais longo é o caminho à nossa frente", afirmou ao aterrar em Londres, vindo da sua Escócia natal.

Qualquer coligação terá de passar pelos liberais democratas, mas o seu líder não assume preferência pelo Labour nem pelos tories."Penso que será melhor esperarmos. Não tomemos decisões à pressa", disse Nick Clegg à imprensa, após a contagem de votos em Sheffield Hallam.

Nock Clegg foi o último líder partidário a falar, perto das 7h, pois, embora a sua reeleição como deputado estivesse assegurada, quis esperar pelo anúncio oficial. "Estamos decepcionados, mas orgulhosos pela campanha positiva que fizemos, cheia de esperança e optimismo", disse.

Verdes estreiam-se no Parlamento

O resultado das eleições de ontem deixa dúvidas no ar. Com 56 deputados por definir, em 650, os conservadores elegeram 285 (mais 87 do que em 2005), ficando a 41 da maioria absoluta, já inalcançável. Os trabalhistas caem de 356 para 232 deputados, por enquanto. Os liberais, que tinham 62 assentos parlamentares, asseguram, para já, 50. Bastante aquém das sondagens, que chegaram a prever o dobro.

A maior novidade no Parlamento chegou de Brighton. Trata-se de Caroline Lucas, líder do Partido Verde, que entra em Westminster pela primeira vez. Os partidos de âmbito regional - Partido Nacional Escocês, Partido Galês, os irlandeses (Sinn Féin, Aliança, Sociais Democratas Liberais, Partido Unionista Democrático) mantiveram, aproximadamente, as suas bancadas parlamentares. Só os unionistas conservadores perderam o único representante que tinham. 

Reforma do sistema político pode ser moeda de troca

O jornal "The Independent" adiantou, a meio da noite, que já haveria "conversações em curso" entre trabalhistas e liberais, para uma coligação governamental. Jack Straw, ministro da Justiça e deputado trabalhista reeleito, desmentiu-as de imediato. Também o titular da pasta da Economia, Peter Mandelson, garantiu que a prioridade de Gordon Brown era, para já, "tomar um duche e descansar".

Os liberais exigirão, para formar aliança com qualquer outro partido, o compromisso de reformar o sistema político, adoptando a representação proporcional no Parlamento e eliminando a Câmara dos Lordes, criando em seu lugar um órgão integralmente eleito. Nick Clegg poderá - embora tenha perdido força negocial, dados os resultados - exigir o afastamento de Gordon Brown do futuro Governo. Essa hipótese levanta um problema: os trabalhistas apontariam o segundo primeiro-ministro consecutivo que não concorreu nem foi eleito para esse cargo.

Se Gordon Brown não conseguir formar maioria com os liberais, será David Cameron, o líder conservador, a tentá-lo. Se não alcançar um acordo, poderá optar por um Governo minoritário. No caso de nenhuma destas soluções funcionar ou perdurar, haverá eleições antecipadas.