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Eleições no Reino Unido

Britânicos vão às urnas sem arriscar prognósticos

Já se vota no Reino Unido. Urnas abriram às 7h00 e os resultados das eleições gerais continuam imprevisíveis. Período pós-eleitoral pode tornar-se confuso. Clique para aceder ao índice do dossiê dossiê Eleições em Inglaterra.

Pedro Cordeiro, enviado a Londres (www.expresso.pt)

As urnas estão abertas e, pelo menos em Londres, não chove. Vota-se desde as 7h, pelo que muitos eleitores aproveitam para exercer o seu direito antes de ir trabalhar. "Céus, há fila!", exclama uma rapariga, já atrasada para chegar ao emprego. À porta da mesa de voto de Gray's Inn Road, em Londres, dois membros da administração local apontam os números dos que entram para votar. "Afluência normal, nada de especial", asseguram. Os eleitores vão chegando. São brancos, árabes, negros, de todas as idades. Alguns trazem pela mão crianças que hão-de deixar na escola já a seguir.

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Os britânicos têm até às 22 horas de hoje para resolver a dúvida que percorre o Reino Unido: que Governo terá o país a partir de amanhã? Não é certo que os números saídos das urnas dêem uma resposta inequívoca, dado o sistema eleitoral e as convenções constitucionais (não há uma Lei Fundamental escrita). Ao longo de sexta-feira (alguns círculos só contarão os votos sexta-feira de manhã), passar-se-á da polémica do voto táctico à polémica da formação de Governo.

É quase certo que o Partido Conservador vencerá. Nas sondagens dos últimos três dias, lidera com 33 a 38% das intenções de voto, contra 27 a 31% para os trabalhistas (no poder) e 23 a 30% para os liberais democratas. O anúncio de cortes na despesa pública - mais prováveis sob administração conservadora - assusta muitos britânicos e foi um assunto que os trabalhistas não se cansaram de trazer à baila durante a campanha.

"Mas os cortes são, em larga medida, necessários!", diz ao Expresso Jamie, advogado estagiário e eleitor na circunscrição de Holborn & Saint Pancras. Preocupa-se mais com a inexistência de maioria absoluta. "É mau para os mercados", explica. E acrescenta, pensativo: "Acho que não era nascido da última vez que houve um Parlamento minoritário".

"Brown tem de ir embora!"

Além de ser improvável que qualquer partido chegue aos 326 deputados (metade mais um), dois dos estudos de opinião mais recentes, um deles publicado ontem à tarde, sugerem a hipótese de os trabalhistas poderem ter mais lugares no Parlamento, embora menos votos, do que os conservadores. Nesse caso - e na ausência de maioria absoluta -, o primeiro-ministro cessante seria o primeiro a exercer o direito de tentar formar Governo. Sucede, porém, que Gordon Brown só poderia fazê-lo através de uma aliança e os liberais democratas não o querem a liderar o Executivo. Nem eles nem a maioria do eleitorado, cerca de 48 milhões, chamados a eleger 650 deputados - em círculos uninominais - e também as autoridades locais.

"Gordon Brown tem de ir embora. Foi bom ministro das Finanças, mas não serve para líder. É lento, hesitante, falta-lhe o 'factor Obama'", afirma Judy, professora reformada com quem o Expresso se cruzou no East End londrino. "Talvez Brown devesse ter convocado eleições assim que Tony Blair se demitiu, para ganhar legitimidade", lança Judy, que não sabe bem como votar, pois tão-pouco confia no líder tory David Cameron. "Preocupam-me os cortes sociais. Hospitais, escolas, transporte público..."

"David Cameron faz demasiado parte do establishment", diz Mike, nascido em Inglaterra, mas presentemente a morar no Canadá. Os cortes, garante, implicarão a perda de postos de trabalho. O líder conservador "é vivaz, faz campanha 24 horas por dia na recta final, mas mete medo", argumenta Judy. Os trabalhistas têm argumentado que os cortes, se feitos em excesso e cedo de mais, prejudicarão a retoma. Os conservadores replicam que há que substituir o "grande Estado" pela "grande sociedade", mas os jornais têm-nos criticado por não explicarem bem o que isso é. O certo, assegura Mike, é que "todos farão cortes".

A esperança da reforma eleitoral

Foi a propensão dos tories para cortar na área social que levou Claudia, na casa dos 30 anos, a votar nos trabalhistas. À saída da mesa de voto, diz estar "entusiasmada e nervosa". Claudia é um caso raro, pois passou de apoiante dos liberais democratas a adepta de Gordon Brown. Quando lhe assinalamos que fez um percurso ao contrário da maioria dos eleitores flutuantes nestas eleições, é peremptória: "Foi o único que disse o que eu queria ouvir. O único com um discurso sólido".

De volta ao East End, Mike espanta-se com a apreensão que a inexistência de uma maioria absoluta suscita aos britânicos. No Canadá, explica, essa é a regra e não a excepção. O mesmo se passa em Portugal. "Se não houver maioria, as coligações podem ajudar a que se façam certas reformas, mas as bolsas de valores virão por aí abaixo", justifica-se Judy.

Estará a alternativa nos liberais de Nick Clegg, a verdadeira estrela desta campanha? "É uma personagem fantástica, fizeram dele um menino de ouro, mas não me seduz", responde Judy, que discorda do europeísmo de Clegg. Apoia, porém, as ideias liberais de mudar o sistema político que tantas dúvidas gera. "Isso tem de acontecer. E talvez o 'Parlamento suspenso' [designação britânica para a ausência de maioria absoluta] seja a ocasião para o fazermos", diz Judy, finalmente exibindo um sorriso esperançoso