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Se fosse ministro do Ambiente...

Maria Alexandra Abreu Lima

A principal contradição das sociedades actuais não é entre Ambiente e desenvolvimento, mas antes entre resultados económicos de curto-prazo e benefícios de longo prazo, explica a bióloga Maria Alexandra Abreu Lima. Por isso, a doutoranda em engenharia do Ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa defende medidas que mudem mentalidades, informem os cidadãos e ultrapassem as respostas convencionais dos governos. 

1. Uma mudança de mentalidades e visões.

A análise de implementação de políticas de desenvolvimento sustentável nos países industrializados (Lafferty e Meadowcroft, 2002) (cit. Sneddon et al., 2006) confirmou uma inacção impressionante. O falhanço para travar o avanço das actividades humanas insustentáveis em termos ambientais está ligado à existência de instituições ineficazes e a uma generalizada falta de vontade política por parte de governos e de cidadãos a diversos níveis. Verifica-se, portanto, que na sociedade actual a tensão principal não é ambiente vs. desenvolvimento, mas sim resultados económicos de curto-prazo vs. benefícios e opções a longo-prazo para a Humanidade e o Ambiente, o que vai exigir uma ''governância adaptativa'' (Hatfield-Dodds, 2006) e o emergir de uma ''nova estrutura política multilateral global que use a atitude e a dúvida científicas como inspiração fundadora'' (Caraça, 2007).

2. Quebrar situações de bloqueio de complexos tecno-institucionais.

As respostas governamentais convencionais para a degradação ambiental têm-se focado no desenvolvimento de regulação e na intervenção em políticas baseadas na economia de mercado, de modo a optimizar a performance ambiental e económica dos sistemas de produção existentes, conduzindo a que, na definição e construção de novas políticas, surjam instrumentos como acordos voluntários (ver anexos Energia e Transportes do  PNAC 2006), licenças negociadas ou eco- rotulagem (OCDE, 2000, 2003) (cit. Könnölä et al., 2006). Mas muitos autores defendem que estas abordagens orientadas para a optimização são insuficientes para alterar o «status quo» e tendem a favorecer o «techno-institutional lock-in» (Unruh, 2000, 2002;  Unruh and Carrillo-Hermosilla; no prelo) (cit. Könnölä et al., 2006), que cria barreiras políticas e comerciais a alternativas tecnológicas ambientalmente superiores. É preciso, portanto, quebrar este ciclo fechado gerando oportunidades para a implementação de planos para alternativas tecnológicas que possam substituir as arquitecturas tecnológicas existentes e criar novas redes de valores, tal como os «Prospective Voluntary Agreements» (Acordos Voluntários Prospectivos), que favoreçam uma cultura política colaborativa e uma aprendizagem interdisciplinar e intersectorial dos «stakeholders» ou actores-chave envolvidos.

3. Desenvolver ''capital social'' com a ajuda dos media.

Os media devem apostar em informar e envolver os cidadãos neste desafio. Vários estudos demonstram que cada um de nós percepciona diferentes aspectos da realidade social e ambiental a partir de diferentes posições na sociedade e através de diferentes ''lentes'' de conhecimento especializado, pelo que as campanhas de informação devem ser diversificadas e devem ser implementados fóruns de negociação/debate alargados que ajudem a contrariar este modo fragmentado de compreensão da realidade, conduzindo a conhecimentos colectivos enriquecidos (Sneddon et al. 2006) e ao desenvolvimento de capital social neste âmbito.