Siga-nos

Perfil

Expresso

Mês do Ambiente

Uma Terra não chega?

Até que ponto a entrada da Índia e da China num novo patamar de desenvolvimento ameaça o ambiente? O Instituto Worldwatch responde.

Certa vez, perguntaram a Gandhi se pretendia que a Índia, uma vez independente, se viesse a tornar tão desenvolvida como a Grã-Bretanha. A resposta foi uma negativa peremptória. «Se, para chegar onde chegou, a Inglaterra teve de devastar meio mundo, de quantos mundos precisaria a Índia?»

O episódio é contado por Sunita Narain, directora do Centro para a Ciência e o Ambiente da Índia na abertura da edição 2006 do «Estado do Planeta», anualmente editado pelo Instituto Worldwatch e que tem como tema as duas maiores economias emergentes: China e Índia. A ironia de Gandhi é invocada para sublinhar aquilo que, para os autores do livro, é uma evidência: os países emergentes não podem tentar desenvolver-se copiando o modelo de crescimento usado pela Europa e pelos Estados Unidos: nem duas Terras, se as houvesse, chegariam para fornecer recursos para tal.

Conforme refere Laurence Tubiana, docente universitária francesa especialista em desenvolvimento sustentável, o paradigma do desenvolvimento mudou com a chegada ao mercado global de grandes países como a China ou a Índia. Até ao início da década de 90, 40% da população da Terra encontrava-se à margem da economia global. Agora, está a integrar-se rapidamente. «De 1980 para cá, duplicou o número de trabalhadores que entrou na economia de mercado.»

Tudo isto põe em causa a partilha dos recursos. Actualmente, a China consome 26% do aço mundial e 47% do cimento. A seguir aos Estados Unidos é o maior importador mundial de petróleo. E as perspectivas apontam para que, tanto o PIB como a população, continuem a crescer fortemente. Quanto à Índia, poderá vir a ultrapassar a China dentro de 15 anos, tanto no plano económico, como no demográfico. O Protocolo de Quioto isentou temporariamente estes dois países da obrigação de reduzir as emissões gasosas com incidência no efeito de estufa. Mas, a partir de 2012, o tema terá de ser reequacionado.

A tendência ocidental tem sido, frequentemente, a de culpar estes dois países pela alta do preço do petróleo e de outras matérias-primas. Christopher Flavin, presidente do Instituto Worldwatch e cidadão norte-americano, não pensa assim. Lembra que os Estados Unidos consomem 10 a 20 vezes mais matérias-primas correntes por habitante que aqueles dois países e, sensivelmente, o dobro dos europeus, cujo nível de riqueza não é muito diferente da existente além-Atlântico. Tendo apenas um quarto da população chinesa, os norte-americanos importam o quádruplo do petróleo.

Mas, independentemente da maior ou menor solidariedade e mudanças de atitude por parte da Europa e dos EUA, os países em vias de desenvolvimento enfrentam um dilema: não desenvolver para não poluir, ou desenvolver acarretando com os problemas ambientais do mundo ocidental.

Sunita Narain tenta uma outra via. «O modelo ocidental de crescimento que a Índia e a China poderiam querer imitar é intrinsecamente tóxico. Consome uma quantidade imensa de recursos (energia e matérias-primas) e, não contente com isso, produz uma montanha de resíduos.» Os países pobres «podem e devem fazer melhor». Exemplo disso, as medidas aplicadas em Nova Deli para controlar a poluição automóvel. A opção tomada consistiu em reconverter toda a frota de transportes públicos, adaptando os respectivos motores ao consumo de gás natural. A queima deste não produz partículas em suspensão e emite menos dois terços de CO2 que os combustíveis habituais. Hoje a cidade tem a maior frota do mundo de autocarros e outros transportes públicos a gás natural. Apesar do número astronómico de veículos em circulação, do uso de tecnologias ultrapassadas e de sistemas de controlo das emissões incipientes, a verdade é que os níveis de poluição atmosférica estabilizaram. A lição a tirar é que a cidade «não optou pela adopção gradual de sistemas antipoluição e de combustíveis mais limpos, Em vez disso deu um salto em frente, sem transição».

O que se fez nesta área pode e deve ser transposto para outras. «A Índia e a China não se podem dar ao luxo de começarem por ser esbanjadoras de água para, depois, a passarem a gerir eficazmente, nem de poluir primeiro para despoluir depois.» Isto passa por coisas tão simples como reinventar o autoclismo, pois na sua versão ocidental é caro, construído com materiais nobres e gasta demasiada água. «A Índia não se pode dar ao luxo de construir redes de esgotos sofisticadas para evitar a poluição fecal dos cursos de água.»

Estas questões e as que lhes estão subjacentes foram debatidas durante a semana em Paris, no Painel Inter-Governamental para as Alterações Climáticas. Nessa perspectiva publicamos, nas páginas seguintes, um glossário relativo aos problemas do efeito de estufa, das mudanças climáticas e do Protocolo de Quioto.