Siga-nos

Perfil

Expresso

Mês do Ambiente

Querida, não encolhi o CO2

Os Silva são uma família de classe média atormentada com as suas emissões de carbono nos mais pequenos gestos do dia-a-dia. Os Silva somos todos nós.

À hora do jantar, os Silva repetem os gestos rotineiros de milhões de famílias suburbanas. A cozinha é um corrupio. Rosa abre e fecha a porta do frigorífico para tirar os legumes, as costeletas de porco, a margarina... O marido, Joaquim, dá-lhe uma ajuda no fogão e mexe o refogado, com lágrimas por causa das cebolas e suspiros de enfado. Ele preferia estar sentado na sala, de pantufas, a ver o noticiário, mas o Tiago e o João plantaram-se em frente ao ecrã plasma, e jogam, há horas, o Pró-Evolution Soccer 6 que lhes ofereceu no Natal. Os dois filhos já deviam ter feito os trabalhos de casa no computador, que está ligado desde que chegaram das aulas. Nem os ralhetes os despregam dos pontapés na bola da Playstation.

O «bip» do telemóvel avisa que a bateria está recarregada, mas Joaquim só consegue ouvir o ruído do microondas, os gritos de «golo» dos miúdos e as bátegas de chuva que batem com violência nas janelas do T-3 de Mem-Martins, na linha de Sintra, subúrbio de Lisboa. O frio e a humidade de Janeiro não entram no apartamento porque o comerciante vedou as frinchas das janelas e comprou um aparelho de ar condicionado, modelo todo modernaço, a pedido da friorenta esposa.

Joaquim suspira também porque deu uma vista de olhos nas facturas da electricidade e do gás deste mês. A conta atingiu a estratosfera. Ele bem avisou a mulher para só lavarem a roupa e a loiça no horário económico, e para comprarem lâmpadas fluorescentes compactas de 20W, mas ninguém lhe dá ouvidos. Os desmiolados dos filhos só apagam as luzes do quarto quando vão dormir e raramente desligam o televisor da tomada eléctrica.

No outro dia, fez as contas: a sua família produz mais de uma tonelada de CO2 todos os anos, graças aos 400 kwh de electricidade, aos 30 metros cúbicos de gás mensais e aos três quilos de lixo diário que produz. Para compensar os excessos caseiros, teria de convencê-los a plantar umas boas dezenas de árvores nos próximos tempos.

Na semana passada, de consciência pesada, Joaquim deu um pulinho ao hipermercado para comprar um ecoponto, mas até agora só a esposa se dá ao trabalho de separar os plásticos do papel. Ainda ontem apanhou em flagrante o traquinas do Tiago a deitar uma lata de refrigerante no recipiente dos vidros.

À hora de ponta no IC19

Todas as manhãs, o filme repete-se. Joaquim Silva sai ensonado e mal-disposto do seu apartamento na freguesia mais populosa do país e enfrenta as intermináveis filas de trânsito do IC19. É um homem de coragem. A viagem até Lisboa, a cerca de 20 quilómetros, chega a prolongar-se por uma hora, ou até mais, se chover ou houver algum acidente aparatoso pelo caminho. Nem o CD de samba que comprou no Recife, nas últimas férias, lhe levanta o astral. O carro, comprado a crédito, ainda com cheiro a novo, não bebe muita gasolina, mas a factura ambiental é pesada. Um cálculo rápido às emissões de carbono revela que um ano de IC19 ao volante no seu utilitário é o mesmo que deitar para a atmosfera 2,22 toneladas de CO2. O fardo é difícil de carregar para o cidadão (quase) exemplar.

A mulher de Joaquim, Rosa, levanta-se um pouco mais tarde e com menos azedume. Primeiro, porque a estação de caminhos-de-ferro de Mem Martins não fica muito longe do apartamento onde moram. Segundo, como há comboios quase de dez em dez minutos, ela bebe a bica e lê o jornal gratuito sem pressas. Terceiro, Rosa nunca se atrasa a chegar ao emprego, no centro da cidade, e até consegue pôr o sono em dia, quando arranja um lugar sentado junto à janela.

É claro que não pode usufruir dos pequenos privilégios de quem viaja ao volante: o ar condicionado, a música no auto-rádio ou a ausência de odores desagradáveis. Mas Rosa não troca por nada a confusão do comboio da Linha de Sintra pelo desespero do trânsito no IC19. Pelo menos viaja num meio de transporte amigo do ambiente, ao invés do automóvel do marido, que enche a cidade de fumo e barulho. Ela não sabe, mas ao viajar de comboio entre Mem Martins e a estação de Entrecampos, em Lisboa, está a produzir apenas 150 quilos de CO2 por ano. Em comparação com as duas toneladas «gastas» pelo marido, é uma brincadeira de crianças.

As férias no Nordeste

O folheto da agência de viagens prometendo umas férias de sonho no Recife deu a volta à cabeça aos Silva. Durante dois meses, no apartamento sem graça de Mem Martins só se falou em praias paradisíacas. Joaquim e Rosa fizeram as contas: se juntassem os seus subsídios de férias podiam ir os quatro até ao Hemisfério Sul.

No dia da partida para o Brasil, a família lá foi, ansiosa, até ao aeroporto, com a bagagem atafulhada de chinelos, fatos-de-banho e protectores solares. A viagem de avião, de oito horas, em classe turística, deixou-os todos partidos. Não perderam a boa disposição, nem quando descobriram que o tal hotel com duas piscinas e jacuzzi ficava a três quilómetros da praia.

Durante as nove noites do imbatível pacote turístico, Joaquim, Rosa, Tiago e João alinharam em excursões pelo Nordeste, beberam muitos litros de água de coco e coleccionaram novos amigos, quase todos de nacionalidade portuguesa. Mas nem só de sonhos vive uma estada de férias. Os Silva deixaram um rasto de poluição difícil de apagar com uma simples borracha: só no hotel, a factura ambiental atingiu as 0,20 toneladas de dióxido de carbono (os duches quentes, as refeições cozinhadas, as horas passadas em frente à televisão também entram na ecoconta). Ainda mais negra foi a cifra ambiental da viagem, de onze mil quilómetros, no charter: cada membro da família Silva foi responsável pela produção de 2,53 toneladas de CO2 - ou seja, sensivelmente o mesmo de um ano de pára-arranca no IC19. E muito mais do que a média de cada cidadão europeu (2,3 toneladas).

O vai e vem do eurodeputado

No que diz respeito a viagens de longo curso, o irmão mais velho de Joaquim é mais traquejado. Duas vezes por semana, voa do Porto para Bruxelas, por razões de trabalho. Os deveres de um eurodeputado assim o obrigam. Como passa muitas horas no ar, F. Silva tem as benesses e o à-vontade típicos de um passageiro frequente.

Nessas duas horas e meia de voo, o político aproveita para ler a correspondência, preparar discursos ou escrever artigos de opinião, sem nunca largar o seu sorriso hiper-confiante. A bordo vai um homem que conhece a fundo «dossiers» que mexem na vida de milhões de europeus. F. Silva desconhece, porém, que é o responsável directo pela libertação de 500 quilos de dióxido de carbono por cada viagem de avião que faz entre as duas cidades. Mas é demasiado comodista e apressado para se lembrar de comprar um bilhete de comboio. Se percorresse os mesmos 1469 quilómetros por linha-férrea, estaria a dar mais uns anos de vida ao planeta. É que a sua viagem de comboio entre o Porto e Bruxelas liberta somente 200 quilos de CO2 por passageiro. Ou seja, menos de metade da poluição causada pelo voo.

Da última vez que viajou por via terrestre da Bélgica até Portugal, só contabilizou dores de cabeça: o deputado decidiu vir à boleia no carro de um colega de partido para poder estar presente no aniversário do irmão. Mas foi obrigado a dormir a meio do percurso, num motel barato, em Espanha, porque o veículo teve um furo inesperado. Resultado: faltou aos anos do mano mais novo mas, sem saber, deu ao ambiente um crédito de 400 quilos de dióxido de carbono. É que mesmo um carro topo de gama é bem menos poluente do que um avião de passageiros.

Fim-de-semana em Albufeira

Os dois irmãos só passaram férias juntos quando eram crianças, em Albufeira. Mal se casaram, foi cada um à sua vida. Para Joaquim, no entanto, as quinzenas no Algarve estão entre os momentos mais felizes da sua vida. Foi lá que conheceu a sua mulher, quando ainda eram jovens cheios de borbulhas na cara e se enfrascavam de cerveja no Kiss e no Locomia. Num acesso de nostalgia, Joaquim decidiu que este fim-de-semana iria mandar a rotina às urtigas. O novo chefe estava a meter-lhe a cabeça em água e necessitava de uns dias fora da cidade para arejar. Além disso, estava farto de passar os domingos enfiados nos «shoppings», com a mulher e os dois filhos. Na sexta-feira à noite, os quatro saíram disparados pela A2 em direcção ao sul do país e três horas depois estavam a fazer o «check-in» num hotel de praia, de três estrelas.

Agarrado ao seu novo computador portátil, Joaquim decidiu surfar na Net e espreitar o contador de emissões de CO2 no sítio www.carbono-zero.com. Fez as contas de somar na calculadora e adormeceu com a incómoda sensação de quem enviara para a atmosfera mais 40 quilos de dióxido de carbono, com uma simples viagem de carro. Lá estava ele a contribuir, mais uma vez, para o aquecimento do planeta... Mas pelo menos agora, as discussões com o patrão estavam a 300 quilómetros de distância.

 

T-shirt de algodão ou de viscose?

O algodão é mais barato e a produção de uma peça consome menos energia do que uma de fibra. Mas se se tiver em conta o tempo útil de vida de uma T-shirt, a de algodão requere mais do dobro da energia. A conclusão é do Institute for Manufacturing da Universidade de Cambridge. A grande diferença está no uso; a T-shirt de fibras pode ser lavada a uma temperatura mais baixa, seca por si e não precisa de ser passada a ferro. No quadro mostra-se o consumo comparativo de energia (em megajoules), partindo do princípio de que ambas as T-shirts são lavadas 25 vezes antes de irem para o lixo.

 

1 kg de kiwis pode emitir 20 kg de CO2

Um quilo de kiwis da Nova Zelândia transportados de avião até Portugal é responsável pela emissão de vinte quilos de CO2. Se a mesma quantidade de fruta vier de barco, liberta 400 gramas de CO2. Se os kiwis forem cultivados a cem quilómetros de Lisboa e transportados de camião para a cidade, só são responsáveis pelo envio de 10 gramas de dióxido de carbono. Podem não ter o mesmo sabor, mas são mais ecológicos. Por isso, as uvas do Chile, os alhos da China ou as laranjas de Israel podem até ter um preço mais baixo do que produtos nacionais nos supermercados portugueses, mas será que, tudo medido, são mesmo mais baratos? Para a vida na Terra, os custos não se medem apenas em dinheiro...

 

Lareira ou ar condicionado?

Quando compram uma casa, muitas famílias dividem-se entre a compra de uma lareira ou de um aparelho de ar condicionado. Colocando de parte as questões monetárias e de saúde, a lareira seria a escolha acertada a nível ambiental. A madeira queimada não gera qualquer emissão de dióxido de carbono de origem fóssil, porque a lenha é biomassa. Pelo contrário, um aparelho de ar condicionado, mesmo que seja amigo do ambiente - ou seja que tenha uma elevada eficácia energética - liberta sempre algum CO2 para a atmosfera.