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Mês do Ambiente

O risco e o desafio

Será a nossa herança um mundo cada vez mais insustentável?

A questão das alterações climáticas está na ordem do dia e é uma das prioridades da agenda política da União Europeia. Contudo, a maioria das pessoas interroga-se sobre o que se está a passar e quais os riscos envolvidos. O problema, nos seus aspectos essenciais, é simples.

Antes da revolução industrial a concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2) era de 280 partes por milhão de volume (ppmv). Em 2007 já ultrapassa 380 ppmv e, se globalmente continuarmos a emitir ao ritmo actual, atingirá valores da ordem de 800 ppmv em 2100. O aumento resulta de emissões crescentes de CO2 para a atmosfera onde, em média, permanece cerca de 100 anos até se dissolver nos oceanos ou ser sequestrado pelas plantas na fotossíntese. As emissões devem-se principalmente à combustão dos combustíveis fósseis - carvão, petróleo e gás natural - e às alterações no uso dos solos, especialmente a desflorestação.

Qual é então o problema? O CO2 é um gás com efeito de estufa (GEE), ou seja, absorve a radiação infravermelha emitida sobretudo pela superfície da Terra. A presença na atmosfera de vários GEE provoca um efeito de estufa natural que aumenta a temperatura média global de 18ºC negativos para os actuais 15ºC positivos. Se aumentarmos a concentração dos GEE a temperatura média global irá aumentar inevitavelmente e os fenómenos meteorológicos e climáticos extremos tenderão a ser mais frequentes e intensos. Há incertezas nos cenários climáticos futuros obtidos com modelos do sistema climático, mas o mecanismo do efeito de estufa é muito bem conhecido e resulta das leis fundamentais da física, cuja modificação está fora do nosso alcance.

Ou travamos as emissões globais ou teremos alterações climáticas mais pronunciadas com impactos negativos, cada vez mais gravosos, sobre os recursos hídricos, agricultura, florestas, biodiversidade, saúde, zonas costeiras, pescas, turismo e seguros.

Como responder a este problema? Há essencialmente dois tipos de respostas complementares: a mitigação ou a redução das emissões de GEE e a adaptação, que consiste em procurar minimizar os impactes adversos das alterações climáticas. Na mitigação a dificuldade é que não basta alguns países reduzirem as emissões; é necessário reduzir as emissões globais. Estamos perante um desafio gigantesco porque o mundo tem uma enorme dependência dos combustíveis fósseis que correspondem a cerca de 80% das fontes primárias de energia. Se as emissões globais anuais não se reduzirem de pelo menos 50% até 2050 relativamente às de 1990, teremos até 2100 aumentos da temperatura média superiores a 2ºC, o que nas regiões continentais corresponde a valores superiores, da ordem de 3 a 4ºC. É necessário começar a planear o regime climático pós-Quioto, ou seja, para lá de 2012. A UE irá provavelmente antecipar-se e adoptar uma redução unilateral das emissões de 20% até 2020, na esperança de que isso será compatível com o crescimento e a competitividade económica e servirá de exemplo ao resto do mundo. Em poucas décadas as economias emergentes - China e Índia em especial - irão emitir mais do que os países desenvolvidos ao continuar a usar intensivamente o carvão para atingirem os nossos níveis de desenvolvimento e qualidade de vida. A solução que temos é investir mais na investigação e desenvolvimento das energias renováveis e em tecnologias de captura e sequestro de CO2.

Ambas as respostas às alterações climáticas têm custos. Reduzir muito e rapidamente as emissões tende a desacelerar a economia. Porém, reduzir pouco e lentamente tem, no futuro, um efeito semelhante porque implica custos acrescidos resultantes de impactos mais graves e medidas de adaptação mais onerosas. Estamos perante um desafio à nossa capacidade de solidariedade intergeracional. Seremos capazes de juntos caminharmos para um mundo sustentável ou a nossa herança para as gerações vindouras será um mundo cada vez mais insustentável?

Este editorial foi escrito pelo Prof. Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências de Lisboa e um dos maiores especialistas em Ambiente, a convite do Expresso