Siga-nos

Perfil

Expresso

Mês do Ambiente

Milhões cada vez mais verdes

Oportunidade. O sector está a gerar um interesse sem precedentes junto de empresários, banqueiros, empresas de construção e consultores em geral.

Há uma coisa de que os mais de 1000 empresários que já se movimentam no sector do ambiente não se vão poder queixar: é que, nos próximos seis anos, não lhes vai faltar trabalho. Nem a eles nem aos que lhes quiserem fazer concorrência.

Se se concretizarem todos os investimentos já anunciados publicamente pelos Ministérios da Economia e do Ambiente, espera-os qualquer coisa como 14 mil milhões de euros. Se a este número juntarmos ainda outro que tem a ver com o valor da exploração dos vários sistemas de águas, lixos e resíduos a fasquia sobe - num período de seis anos - para 35 mil milhões de euros. É muito dinheiro, e é isso que faz com que este sector se esteja a tornar um dos mais promissores na economia nacional. Mas ainda há que adicionar mais uma parcela à equação - para já impossível de calcular com exactidão - que tem a ver com a exploração dos novos parques eólicos, das novas barragens, dos novos parques solares, e das novas centrais de biomassa, além da exploração das centrais de ciclo combinado, da energia das ondas, ou ainda das novas unidades de produção de biocombustíveis.

“Para mim não é novidade que o sector do ambiente é um negócio muito interessante, e a prova disso mesmo é que já estamos nesta área desde 1993. Este ano contamos facturar 120 milhões de euros só em negócios verdes, o que deverá representar 15% do volume global de negócios do grupo”, explica Diogo Vaz Guedes, presidente da Somague.

E se alguém ainda duvida da oportunidade dos negócios do ambiente, o empresário desarma de imediato os mais cépticos contando uma pequena história: “Em 1998 investimos 20 milhões de euros na criação da Finerge, uma empresa para a área das energias renováveis. Passados oito anos vendemo-la por 160 milhões. Enfim, parece-me que foi um bom negócio”, diz com ironia e satisfação.

Coincidência, ou talvez não, a verdade é que, na passada semana, Manuel Pinho, ministro da Economia, conseguiu juntar no seu gabinete da Rua da Horta Seca, em Lisboa, alguns dos maiores empresários nacionais, gestores de topo, especialistas em ambiente e até banqueiros. Quis falar-lhes dos milhões esperados para o sector das energias limpas. A sala estava a rebentar pelas costuras e o interesse demonstrado pelo assunto deixa antever uma verdadeira corrida aos investimentos verdes que ali foram anunciados.

Nunes Correia, ministro do Ambiente, que também esteve presente no encontro, disse mais tarde ao Expresso que o seu pelouro será responsável pela aplicação de três mil milhões de euros na construção de infra-estruturas de abastecimento de água, a partir de agora e até 2013. “Apesar de nos acusarem de estarmos demasiado presentes no sector - nomeadamente através da Águas de Portugal -, a verdade é que o Estado tem a obrigação de suprir determinado tipo de carências, especialmente nas áreas do abastecimento de água e do saneamento”.

Assim que se ultrapassar esta fase das grandes obras fundamentais, o ministro admite que o Estado possa proceder a uma retirada gradual do sector, deixando o caminho aberto de uma vez por todas aos privados que ali desejem intervir.

Em matéria de concessões no domínio das águas para consumo, Nunes Correia adianta que dos actuais prazos de 30 anos se passará para outros mais flexíveis de 10 a 15 anos, ao nível do retalho (ou seja, do abastecimento ao domicílio). “Desta forma, as concessões ficarão mais atractivas para os privados pois estes não irão estar tão dependentes de uma retaguarda financeira, que agora têm que ter”, sublinha o titular do Ambiente.

Mercado não é totalmente livre

João Levy, presidente da Associação das Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente (AEPSA), lamenta que em 13 anos de mercado aberto não se tenha ido além das três dezenas de concessões. “Havia um potencial enorme que acabou por não funcionar”, sublinha, para acrescentar que “os municípios não tiveram interesse em concessionar pois os preços reais que teriam de praticar não ajudariam a ganhar eleições, preferem continuar como estão, com tarifários políticos, oficialmente suportados pelos dinheiros públicos”.

O presidente da AEPSA diz que é incompreensível mas a verdade é que uma boa parte do mercado do ambiente está estatizado, nomeadamente ao nível das águas, resíduos e esgotos. Segundo este especialista, “onde tem havido maior dinâmica de mercado tem sido nas vertentes da consultoria e projectos, e também na construção de infra-estruturas. A parte da exploração dos vários sistemas está totalmente nas mãos do Estado”. O dirigente vai mais longe e diz mesmo que “ainda não temos um mercado livre e o que existe não é concorrencial”.

Dá como exemplos a Espanha (com 30% do mercado privatizado), e a França (com 50%). “Nós não vamos além dos 10%. É muito pouco”. Diogo Vaz Guedes, da Somague, está em consonância com João Levy, e remata dizendo que “ainda há aqui muito por fazer. Temos é que aprender rápido”.

 

O sector em números

14.000 milhões de euros é o valor a investir nas energias renováveis e no abastecimento de água a todos os portugueses ao longo dos próximos seis anos



20
é o número de milhões de toneladas de resíduos sólidos banais que todos nós produzimos por ano. O seu tratamento representa um custo de 800 milhões de euros. Para as 300 mil toneladas anuais de lixos perigosos serem devidamente tratadas são precisos 30 milhões de euros

1euro vai ser, em breve, o custo de cada metro cúbico de água para consumo humano, que agora ronda os 80 cêntimos. Já agora, como curiosidade, cada um de nós gasta por dia em média 150 litros de água

100.000 deverá ser o número de empregos verdes dentro de seis anos, quando o volume de investimentos anunciados estiverem concretizados. Os engenheiros do ambiente estarão entre os profissionais mais solicitados pelo mercado

 

ESGOTOS É um dos subsectores em que ainda há muito por fazer, nomeadamente em matéria de tratamento de efluentes antes das descargas para os rios. Mas também pode estar aqui a despontar uma nova área de negócio cuja importância não é de menosprezar. Trata-se do reaproveitamento das águas, depois de tratadas, para determinado tipo de usos, como lavagem de ruas, espaços públicos, ou rega de jardins e campos de golfe. O valor actual deste segmento ronda os 378 milhões de euros anuais. Mas os analistas consideram que o número vai crescer.

LIXOS Tal como nos outros segmentos do mercado do ambiente, também aqui a unidade de conta é o milhão. No que respeita ao tratamento de resíduos sólidos domésticos o valor anual deste nicho ronda os 315 milhões de euros. Mas a estes ainda há que juntar os lixos industriais perigosos, que já representam 30 milhões de euros/ano e os lixos industriais considerado banais. Neste grupo a fasquia sobe para os 800 milhões de euros anuais. Estes números podem, segundo alguns analistas, pecar por defeito, o que torna o negócio em causa ainda mais atractivo.

EÓLICAS No domínio das energias renováveis a produção de energia limpa a partir do vento é a menina dos olhos. Portugal ocupa já uma posição de destaque a nível mundial, mas o Governo ainda quer ir mais longe e garante que os investimentos nesta área, até 2012, deverão ascender a 5,1 mil milhões de euros. Só de forma directa serão aqui criados 2500 postos de trabalho. O pontapé de saída foi dado esta semana com o arranque das obras da primeira de cinco fábricas a construir pelo consórcio Eólicas de Portugal, que recentemente ganhou um concurso que vale 1,7 mil milhões de euros.

HÍDRICAS Mesmo que Portugal só aproveite dois terços do potencial hídrico não explorado isso pode gerar um volume de investimentos da ordem dos 3,6 mil milhões de euros. Estamos a falar da construção de novas grandes barragens e algumas mini-hídricas, mas também do reaproveitamento de algumas das que já existem. Os trabalhos de execução das obras requeridas poderão originar mais de 10 mil novos empregos, muitos deles em regiões desfavorecidas. Obviamente que serão empregos temporários mas, ainda assim, prolongar-se-ão no tempo por alguns anos.

BIOMASSA Estamos perante uma área de negócio verde que poderá ter um papel decisivo tanto na vertente ambiental, pela via da limpeza das matas e florestas, como ao nível sócio-económico regional, pois vai exigir mão-de-obra intensiva para aquelas tarefas. Naturalmente que não se trata de trabalho qualificado, mas vai levar oportunidades de emprego a muita mão-de-obra desempregada em zonas desfavorecidas do país, nomeadamente nas regiões da Beira Interior e Trás-os-Montes, bem como em algumas partes do Alto Alentejo. O investimento previsto pelo Governo ascende aos 500 milhões de euros.

VIDRO, PAPEL E PLÁSTICO Nos primeiros nove meses de 2006 os portugueses separaram e colocaram nos 27 mil ecopontos em todo o país mais de 176 mil toneladas de embalagens de vidro, papel/cartão e plástico - mais 15% que em igual período do ano anterior. De acordo com a Sociedade Ponto Verde, o vidro continua a ser o material-líder nas retomas (99.447 toneladas recolhidas), seguido do papel/cartão (50 mil toneladas) e do plástico (14.224 toneladas). A madeira foi o material menos reciclado (apenas com 1.393 toneladas recolhidas).

BIOCOMBUSTÍVEIS O esforço de redução de emissões de CO2 vai conduzir a uma forte aposta nos biocombustíveis. O Governo estima para este segmento um investimento global de 300 milhões de euros. Um dos maiores projectos neste domínio está a ser liderado pela Martifer, fica em Aveiro, e representa um investimento de 70 milhões de euros. Além deste projecto, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, disse ao Expresso que estão previstas mais duas unidades de produção de biocombustíveis em Sines e na Chamusca. Os cereais do Alentejo servirão de matéria-prima.

ENERGIA SOLAR Num país com tanto sol seria quase um crime não aproveitar para fins empresariais essa matéria-prima disponível a custo zero. São já vários os projectos em curso neste nicho de mercado (que o Governo avalia em 500 milhões de euros), com especial destaque para o que vai surgir em Moura. Representa um investimento de 265 milhões de euros e vai criar 130 postos de trabalho, numa região onde não abundam as oportunidades de emprego. Entretanto, em Tavira, o empresário Diogo Vaz Guedes vai produzir energia eléctrica a partir de painéis solares térmicos.

CONSULTORIA E PROJECTOS Das três grandes áreas de actividade da chamada economia do ambiente (estudos e projectos, construção, e exploração/concessão) esta é a que tem registado uma maior dinâmica nos últimos anos. Não é daquelas em que a criação de emprego é mais significativa, mas é, segundo fontes do sector, a que tem dado origem a um maior número de pequenas e médias empresas. A tendência é para que, à medida que muitos dos anunciados projectos de execução de obras começarem a surgir, outras novas empresas projectistas cheguem ao mercado.