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Expresso

Mês do Ambiente

Cousteau está vivo

Mergulhou pela primeira vez aos 7 anos e sonha viver numa cidade submarina. Anda sempre com uma régua do Oceanário de Lisboa, lembrança de quando esteve na Expo 98. Conversa exclusiva com Jean Michel Cousteau, filho do «Captain Planet».

Os fãs de Jacques Cousteau lembram-se sem dificuldade do momento solene que era assistir ao «O Mundo Submarino», a série que ganhou dimensão de culto. Os mesmos fãs podem hoje reconfortar-se ao ver o programa do seu filho mais velho, Jean Michel Cousteau, «Ocean Adventures», e sentir isso como uma espécie de sequela, de continuação do legado de Cousteau. Para os que choraram inconsoláveis a morte do homem do boné vermelho, é bom saber que o seu trabalho continua vivo através de Jean Michel e que os próprios netos também seguiram o apelo do mar. Aos 68 anos, Jean Michel Cousteau já deu provas mais do que suficientes do seu valor. Mas como é viver à sombra do mito? Ontem, a 2 de Fevereiro, numa conferência internacional em Cannes, Jean Michel explicou por que aceitou ser, à semelhança da família Kennedy, a imagem de uma marca internacional que veremos por todo o mundo. Pretexto para uma conversa exclusiva (por «e-mail) com o filho do «Captain Planet».

É o primogénito de Jacques Cousteau, e o seu «legítimo herdeiro» - aquele que lhe seguiu os passos. No entanto, não gosta que lhe digam isto - sente-se uma sombra, e acredita merecer um lugar por si só. Oceanógrafo, ambientalista, ecologista, Jean Michel Cousteau continua a travar a mesma cruzada do pai, a favor dos oceanos. À beira dos 70, tem uma farta barba branca que lhe dá um ar sábio e bonacheirão, mais afável do que o pai, e orgulha-se do seu «nariz Cousteau». Arquitecto de formação, é separado e tem dois filhos, Fabien e Céline, de 38 e 32 anos, também eles com profissões e vidas ligadas ao mar - ele faz documentários para a National Geographic («especializou-se» em tubarões), ela trabalha na Ocean Futures Society, a ONG fundada pelo pai, e ambos participam nas suas expedições.

O currículo de Jean Michel é extenso: produziu mais de 75 documentários, ganhou Emmies, Peabodies e outros galardões de televisão, participou em filmes de animação como À Procura de Nemo. Teve o reconhecimento de Al Gore, das mãos de quem recebeu o prémio de Herói Ambiental, e convenceu George W. Bush a classificar um santuário de baleias de bossa no Havai como Monumento Marinho. Neste momento, a menina dos olhos de Jean Michel é a Ocean Futures Society, fundação que criou em 1999 e sediou em Santa Bárbara, na Califórnia. Através dela, investe todos os anos na educação para o ambiente, para que milhares de crianças incorporem o seu lema: «Proteja o oceano, e estará a proteger-se a si.»

O «lobo do mar» diz ter dois heróis: o pai e um índio da Amazónia chamado Kuskus, que lhe ensinou a importância de planear para as gerações futuras: plantava árvores para que os tetranetos tivessem madeira para construir as suas canoas. Pela causa ecologista, Jean Michel travou a batalha de devolver Keiko, a baleia protagonista de Free Willy, à liberdade - o que conseguiu, em 1999. E pela luta constante tornou-se a primeira pessoa a representar o Ambiente na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2002, a par de personalidades como o arcebispo Desmond Tutu, Lech Walesa e Steven Spielberg.

Dois anos mais tarde, «exorcisou» os fantasmas do passado ao escrever o livro O Meu Pai, o Capitão. Fê-lo para «repor a verdade», segundo diz, a propósito de várias biografias sobre Jacques Yves que vieram a público. Na obra, lê-se a influência determinante que o pai teve no filho, mas também algumas descobertas chocantes para os fãs, como a revelação de que para levar a cabo certas filmagens, por vezes maltrataram-se animais, como golfinhos. Jean Michel garante que este era um procedimento normal entre os realizadores da época, e que o pai considerava que os fins justificavam os meios - embora condene o acto.

No livro, Jean Michel exprime também a sua mágoa e desilusão. Nem sempre as relações familiares foram fáceis, e não se pode dizer que não tenha havido motivos para isso. Casado com Simone, Jacques Cousteau manteve durante mais de uma década, secretamente, uma relação extraconjugal com Francine Triplet, de quem teve dois filhos, Diane e Pierre Yves. A vida dupla durou até ao fim da sua vida - só no funeral do comandante, em 1997, as duas famílias tiveram conhecimento da existência uma da outra. Entretanto sucedem acontecimentos importantes na vida de Cousteau, como a morte do filho mais novo, Philippe, num acidente de hidravião, a 28 de Junho de 1979, no Mar da Palha, em Alverca, na costa portuguesa. O filho amado - com quem o capitão fazia a maioria das expedições, considerado o seu natural herdeiro - seria sepultado no mar, como Jacques Cousteau queria para si, embora não tenha sido esse o seu destino. Um escasso ano mais tarde, nascia o primeiro filho da relação com Francine, que se oficializou em 1990, meses após a morte de Simone, primeira mulher e companheira de muitas expedições a bordo do «Calypso» - e no mesmo dia do aniversário da morte de Philippe... Rudes golpes para Jean Michel, último «sobrevivente» do primeiro casamento e de uma época.

Nos últimos anos de vida do pai, Jean Michel acusou-o de vaidade excessiva e de perseguir honrarias. Jacques também não primava pela meiguice. Em 1991, quando o Parque Oceânico Cousteau em Paris encerrou, um ano após a inauguração (tendo custado 120 milhões de francos), o comandante culpou directamente Jean Michel pelo fracasso. «Não foi o parque que fracassou, foi o meu filho que fracassou», disse. E rematou, amargo: «Não é por alguém ter nascido do nosso esperma que tem as qualidades para nos substituir...» Mais tarde, em 1996, levaria mesmo o filho a tribunal, por usar o apelido Cousteau na denominação do «resort» de Jean Michel nas ilhas Fiji. O «eco-resort» passaria a chamar-se especificamente Jean Michel Cousteau Fiji Resort - e em 2005, ganhou o prémio Condé Nast para Small Resort Environmental Design.

Foi nesse mesmo ano que se iniciou outra batalha familiar, desta feita pela posse do «Calypso», depois de o antigo caça-minas da II Guerra Mundial ter sido abalroado por um cargueiro e naufragado em Singapura. A madrasta de Jean Michel, Francine, queria reparar o navio nas Bahamas, e ancorá-lo nas Caraíbas, fazendo dele um museu. Jean Michel opunha-se a que o navio da sua meninice saísse de França, considerando-o património cultural do país. O tribunal atribuiu o «Calypso» a Francine, presidente da Societé Cousteau, e desde 1998 que este se encontra a ganhar ferrugem no porto francês de La Rochelle. Também o rumo da Société Cousteau não é certo, acumulando dívidas e sendo alvo de muitas críticas por parte de Jean Michel, que considera que esta perdeu o rumo e não apresenta trabalho válido há muito.

Talvez por isso o primogénito tenha querido criar a sua própria fundação, a Ocean Futures Society, e talvez por isso a tenha baseado longe, nos EUA, onde vive. Rancores esquecidos, prefere guardar a admiração e a aprendizagem que apenas pôde adquirir por ser um Cousteau. Este ano, o filho de peixe que provou saber nadar prepara-se para produzir oito documentários: dois sobre a Amazónia, dois sobre o Mississipi, um sobre as orcas, outro sobre baleias beluga, outro ainda sobre a vida dos crustáceos, e possivelmente um último acerca da ilha de Truk, no Pacífico, onde repousam no fundo do mar 35 navios, três submarinos e um avião da II Guerra Mundial. Na corrida de obstáculos que foi a vida dos Cousteau, o testemunho parece ter sido passado com sucesso.