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Mês do Ambiente

Com arte e engenho

«Fotografia e Engenharia», as forças da natureza, as obras-primas da humanidade e o estado do planeta numa exposição enciclopédica a inaugurar dia 8.

Começa-se pelo princípio, pela separação da água e da terra (vista aérea da costa ocidental da Austrália, do grande paisagista Richard Woldendorp) e do dia e da noite (um pôr-do-sol de Ansel Adams, numa rara prova de exposição de grande formato, isolado à entrada da exposição). Segue-se assim o esforço de entendimento das coisas do mundo que parte do acto de as distinguir e que as palavras do Génesis já transmitiam. É um preâmbulo que logo nos fala da beleza do planeta e dos seus perigos, os cataclismos que o fizeram e reconstroem, sempre numa dialéctica de construção-destruição. E também comparecem, a propósito da aparição dos animais, as grandes ameaças que são as variações climáticas e as acções humanas (uma tempestade australiana olhada pelo lagarto barbudo da fotografia de Nick Moir e os dodós da ilha Maurícia ressuscitados neste século por Harri Kallio, um jovem artista finlandês presente com fotografias e esculturas).

A exposição é um panorama de todas as engenharias, das mais antigas - a militar e a civil - às mais novas - a biotecnologia e a informática -, mais a chamada engenharia social, com um programa científico que a justifica como iniciativa do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian, no âmbito das comemorações do 50.º aniversário. E é «uma exposição universal de fotografia» a pretexto da engenharia, feita por Jorge Calado com 340 imagens de 160 autores, dos primórdios à actualidade e das mais diversas origens e colecções internacionais, que é uma proeza reunir em Lisboa.

«INGenuidades», o título, parte de jogos de palavras com a história e o inglês, entre génio, ingénuo, engenho, etc. As relações da técnica e da estética (que podem ser sinónimos, ensina o comissário), tanto nos domínios da ciência como nos da fotografia, são um dos tópicos do projecto - aliás, as construções da engenharia civil continuam a chamar-se obras de arte. É «uma homenagem à liberdade e génio criativo dos cientistas, técnicos e engenheiros» e também «um comentário sobre o estado do nosso planeta» em tempo de alarmes ecológicos. Em síntese, um projecto de rara dimensão em qualquer parte do mundo, que inaugura no dia 8 na galeria principal da Gulbenkian, fica até 29 de Abril e vai em Outubro para o Palácio de Belas-Artes de Bruxelas, por ocasião da presidência portuguesa da União Europeia. Terá, com atraso de alguns dias, um catálogo de 620 páginas (impresso na Guide) e uma rede de monitores para consulta de mais informação e exploração de itinerários alternativos.

Neste projecto de fôlego enciclopédico distingue-se uma aproximação à fotografia que, ao lado dos ícones famosos e dos artistas reconhecidos, descobre e celebra muitas imagens de carácter técnico, documental, jornalístico... e às vezes de autores anónimos, com as quais se devem questionar as fronteiras da arte, para lá da respectiva ambição, de que o inferno está cheio. Têm abundado por cá contemplações autistas da identidade do médium e da figura do autor e falta conhecer os grandes projectos com que a fotografia actual se continua a enfrentar com o mundo - por exemplo, na vasta obra intercontinental do canadiano Edward Burtynsky sobre a paisagem transformada (e degradada) pelo homem, que se expôs no último PhotoEspaña.

Muitos dos pioneiros e clássicos dos séculos XIX e XX surgem ao lado dos autores mais recentes, com circulação como artistas (Hiroshi Sugimoto, com Forma Mecânica, 2004, na secção Máquinas e Ferramentas) ou premiados como fotojornalistas (Dean Sewell - o World Press Photo distinguiu as imagens do tsunami em Aceh e foi também testemunha da guerra em Timor). Albuminas dos primórdios convivem sem atritos com enormes edições digitais. O itinerário onde os fotógrafos comparecem não é cronológico nem autoral, e os mais representados (Dean Sewell, David Stephenson, Edward Cranstone, australianos, Kees Sherer, um discreto holandês dos anos 50) vão surgindo em diferentes tópicos - é preciso exercitar a atenção e voltar várias vezes, apesar de a exposição ter bilhetes pagos (pelo menos a ciência devia ser gratuita!).

Não se trata de um «puzzle», mas de um percurso bem arrumado, embora sempre inesperado, onde se conta uma história. O primeiro capítulo é dedicado às «Forças da Natureza» e aí se apresenta logo a ideia dos quatro elementos, vinda já dos gregos e hindus, que vai estruturar toda a exposição. Começando pelo Fogo, comparecem os vulcões (a erupção do Vesúvio em 1872 e as descobertas arqueológicas dessa década; paisagens americanas alteradas pelo homem de Frank Gohlke, um dos artistas das «Novas Topografias» de 1975) e depois os incêndios às portas de Sydney e Camberra (Nick Moir e D. Sewell), ou na Beira, Portugal, por Edgar Martins (da série «O Presente Diminuído», 2005). A seguir, a Terra e a grande «vista de águia» das ruínas de São Francisco após o terramoto de 1906, tirada de um engenhoso papagaio com câmara comandada por sinal de telefone pela Geo. R. Lawrence Company. E Carlos Miguel Fernandes, na separação das placas tectónicas eurasiática e americana, na Islândia, em 2006, além das minas de cobre da Tasmânia de David Stephenson (de quem se mostra também a série das cúpulas de templos). Abreviando, continua-se com a Água e o Ar, passando ao capítulo «As Grandes Maravilhas» para percorrer construções em cinco-seis continentes, das pirâmides do Egipto e do México até à ópera de Sydney, vista como corpo em construção por Max Dupain e pelo «olho de peixe» de John Gollings - a homenagem ao arquitecto dinamarquês Jorn Utzon inclui um desenho e uma maqueta.

É então que se entra em pleno nas engenharias, seguindo sempre a pista dos quatro elementos. Terra: Máquinas e Ferramentas (Jeff Carter e o latoeiro que trabalhou 30 anos nas estradas da Nova Gales do Sul, 1955), Engenharia Civil (o jovem francês Mathieu Pernot com os postais de arquitecturas modernas, as implosões e as «testemunhas»), Mecânica e de Minas. Água: Hidráulica, Naval (o «Great Eastern», o maior barco do século XIX, construído pelo grande engenheiro I. K. Brunel e fotografado para o «Times» por Robert Howlett, os desmanteladores de navios no Bangladesh, de Burtynsky e Gudzowaty, e a barbatana de Tubarão II por Robert Cumming). A seguir, um novo «Regresso à Terra» e «O Corpo Prolongado» (a série de Matthew Pillsbury iluminada só pelos ecrãs dos computadores), Biotecnologia, Engenharia Social (M. Pernot e Sewell, ciganos e aborígenes, e um tríptico de Paulo Nozolino). Fogo: Engenharia Metalúrgica, Química, Nuclear. Ar: Pontes, o vento, Engenharia Eléctrica, Aeronáutica, o Espaço.

Além das fotografias da América, sempre decisiva, estão em destaque os fotógrafos da Austrália, continuando as descobertas de outra grande exposição de Jorge Calado, «À Prova de Água», no contexto da Expo-98. E, além dos três portugueses já citados, a lista alarga-se a José M. Rodrigues (um inédito cromeleque dos Almendres, visto do alto de uma escada magirus), Luís Pavão (Auto-Europa, 1998), António Júlio Duarte (investigação e trabalho fabril), Luísa Ferreira (laboratórios científicos, de um projecto à espera de ser mostrado), um campo de futebol em Alhandra, de Paulo Catrica. E os antigos Paulo Guedes, para mostrar o aqueduto de Lisboa ao lado da muralha da China, mais Emílio Biel e os Caminho-de-Ferro do Douro.