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Expresso

Mês do Ambiente

As vidas que o lixo tem

Sabe que mil latas se transformam numa bicicleta? Reciclar é negócio para todos

Já pensou o que vai fazer com este exemplar da revista «Única» quando acabar de o ler? Se não for um coleccionador compulsivo e dono de uma casa do tamanho de um armazém, tem duas alternativas para se desembaraçar dele: ou o deita no caixote do lixo juntamente com a lata da laranjada, a casca da banana, a pilha usada, a meia furada e o resto da sopa e da salada ou pode parar para pensar e… reciclar.

Se o lixo não está ao alcance da vista quer dizer que a recolha não falhou. Mas, nos termos práticos do cidadão, não estar à vista quase equivale a não existir porque o lixo só é assunto quando incomoda. É verdade que a produção de resíduos não pára, mas pode diminuir e diversificar-se. Diariamente, cada um de nós é responsável pela produção de 1,3 quilos de lixo, o que soma 500 quilos ao fim de um ano. E, no fim do ciclo da reciclagem, esse lixo transforma-se em novos produtos de consumo. É que, apesar de poder parecer, a reciclagem não é uma abstracção. Quem achar que a casca da banana não tem préstimo fique sabendo que, uma vez separada, vai direita para compostagem, um futuro adubo cuja qualidade depende do grau de misturada que for o caixote lá de casa. A lata de bebida torna-se uma bicicleta; a garrafa de água de plástico será uma camisola de malha polar; a caixa de papelão pode ser um rolo de papel higiénico; a garrafa de champanhe dá uma garrafa de vinho e o frasco de champô um banco de jardim. Isto, claro, depois de devidamente separados, tratados e encaminhados para os destinos adequados. Mesmo os desperdícios resultantes da reciclagem, que seguem hoje em dia para aterro, passarão em breve a ser matéria combustível, o chamado CDR ou combustível derivado do resíduo.

«Ambiente? Aqui o ambiente é bom, sim senhora! Damo-nos todos muito bem!», confiava um popular do Barreiro a uma engenheira do Ambiente da primeira geração em Portugal, em pleno trabalho de campo naquela zona industrial, no início dos anos 80. O episódio passou a anedota, mas continua a servir para ilustrar que as questões ambientais são ainda recentes entre nós. E que, apesar de já se reciclar vidro desde o princípio daquela década, há por aí muito bom estabelecimento de restauração que todos os dias enche os caixotes do lixo indiferenciado com as garrafas vazias resultantes do comércio do dia. Se uma embalagem de vidro não fosse reciclável sem limite e sem perda de qualidade, esta atitude até poderia nem ter grande importância.

O sr. Marques, que não tem um café mas conduz um táxi, é peremptório: por muito perto que esteja o ecoponto de sua casa, diz que não anda «nem 20 nem 200 metros». E é com propriedade que sugere «em nome de milhares de outros portugueses» que lhe «vão lá a casa separar o lixo». A renitência do taxista esbarra na atitude das suas duas filhas que, adolescentes, «já têm outra mentalidade» e acham obrigatório separar para reciclagem. O confronto dá origem a discussões acesas não chegando, porém, para o levar a mudar de ideias: «Recicla-se, recicla-se, mas eu não vejo o ambiente nada melhor...» Dá pelo menos para perceber que há que investir na educação e confiar em que os jovens sejam os eco-conselheiros das famílias.

Para que serve a reciclagem?

«A reciclagem é uma questão ambiental fundamental», diz Rui Berkemeier, da associação de conservação da natureza Quercus, «e para que os cidadãos colaborem têm de ser tratados como príncipes».

Desde sempre se aproveitou o lixo para dele extrair matérias reutilizáveis, mas, dantes, os profissionais do sector eram mais conhecidos por sucateiros. As matérias - alumínio, aço, papel… - são cotadas num mercado que sofre flutuações fazendo que os bons negócios possam às vezes transformar-se do dia para a noite em grandes fortunas. Não acontecerá todos os dias, mas foi o caso de Zhang Yin, a primeira mulher chinesa a encabeçar a lista das pessoas mais ricas da China, com uma fortuna calculada, no final de 2006, em 2.710 milhões de euros. Yin fundou e preside a uma empresa que se dedica ao fabrico de caixas de cartão reciclado a partir de resíduos de papel comprados aos Estados Unidos. Apesar de a verdadeira raridade ser uma mulher ocupar aquele lugar de destaque na hierarquia das fortunas, o golpe de sorte deveu-se ao facto de a cotação da sua empresa na Bolsa, no período entre Março e Outubro, ter visto subir as acções 165%!

Tecnicamente, a reciclagem tem por objectivo desviar de aterro - que é um dos destinos finais dos resíduos sólidos - todos os materiais valorizáveis e recicláveis. O outro destino final é a incineração. As lixeiras já deixaram de existir desde o final dos anos noventa, ainda que continuem a fazer parte do imaginário de muitos e que persistam os despejos episódicos e ilegais.

Quanto menos toneladas de lixo chegarem aos aterros, mais anos levam estes a esgotar a sua capacidade, menor é o seu número, menor é o número de cidadãos incomodados com a sua existência, menor é a quantidade de toneladas de resíduos a incinerar e, consequentemente, menor é o volume de emissão para a atmosfera de gases que provocam efeito de estufa - entre os quais o famoso CO2.

A incineração de dez mil toneladas de resíduos pode criar um posto de trabalho, ao passo que a reciclagem da mesma quantidade pode criar quarenta. A reciclagem permite ainda que o valor das taxas de lixo pagas pelos munícipes não dispare (em Lisboa especificam-se na conta da EPAL). A Câmara Municipal de Lisboa, que gasta anualmente 50 milhões de euros no sistema de gestão de resíduos sólidos e limpeza da cidade, pode vender o resultado da recolha selectiva de lixo para reciclagem, poupando, assim, no valor pago à Valorsul pelo tratamento e destino final (incineração). Desviar de aterro e desviar de incineração.

Para que o leitor deixe de hesitar e passe a depositar a revista «Única» no contentor azul do ecoponto há que seguir o percurso do lixo até às novas matérias-primas que acabam à venda nas prateleiras das lojas.

O que é tratar e valorizar?

A cada ponto de vista pode estar reservado um pesadelo. Que o diga quem fica com o lixo à porta na sequência de uma greve dos serviços de remoção; ou que o digam os trabalhadores de uma estação de triagem de resíduos sólidos a seguir a uma greve de recolha combinada com, por exemplo, um fim-de-semana prolongado.

«O pior que pode acontecer é ficarmos com lixo a sair pelas portas» dos hangares onde as viaturas municipais descarregam em permanência o produto da recolha, explicou Francisco Neves, da Tratolixo. «Já aconteceu! Levámos três semanas a normalizar a quantidade acumulada em dois dias sem recolha», acrescentou. Esta empresa intermunicipal situada em Trajouce, Oeiras, encarrega-se do tratamento e valorização dos resíduos sólidos dos concelhos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra e recebeu, em 2005 (segundo os mais recentes dados), 330 mil toneladas de recolha indiferenciada e 30 mil toneladas de recolha selectiva. Os resíduos sólidos produzidos nos centros urbanos e periferias são encaminhados, em todo o País, para estações semelhantes (ou equivalentes) à Tratolixo. É ali que os resíduos passam nas linhas de triagem mecânica e manual e o produto das escolhas é encaminhado para as respectivas fileiras de materiais, vidro, plástico, metal e papel/cartão.

Do ponto de vista do produtor de lixo urbano (que, no final, será também o consumidor de novas matérias-primas), estamos aqui essencialmente a falar de reciclagem de embalagens que são depositadas nos ecopontos e nas ilhas ecológicas ou que são recolhidas, nalgumas zonas, porta a porta, como o restante lixo. É o caso de zonas de 26 das 53 freguesias de Lisboa, prevendo-se para 2010 a cobertura total da cidade por este sistema.

O sr. José, munido de vassoura, pá e caixote com rodas, persegue sem cessar os papéis e os plásticos levados pelo vento que sopra nas áreas externas da Tratolixo. Ele sabe bem que faz também parte da cadeia de limpeza final que ali na empresa é exigida e ditada pela passagem diária de muitas toneladas de lixo. Toneladas que passam e seguem, já escolhidas, para os seus destinos, uma vez que ali só é suposto ficarem os resíduos orgânicos durante o tempo do processo de compostagem. Não é evidente o esforço de limpeza que requer um local onde se processa lixo.

Em que se transforma uma garrafa de vidro?

À entrada da Vidrociclo, uma empresa da Figueira da Foz que faz tratamento e descontaminação de casco de vidro para reciclagem, Maria conduz uma escavadora industrial ao jeito da Fórmula 1. Os cabelos louros sobressaem no verde acastanhado das montanhas de vidro partido (casco) entre as quais se move e faz seguir na pá erguida para o interior da linha de produção. A perícia é milimétrica e o ritmo não conhece desmaio. Parece que toda a gente se admira de ver uma mulher na parte «lúdica» do trabalho, normalmente reservada aos homens. Dentro da fábrica, os motores da maquinaria a trabalhar 24 horas todos os dias da semana propulsam toneladas de vidro nas passadeiras. O casco vai-se partindo no caminho ao longo do qual é descontaminado dos outros materiais que foram deitados com o vidro nos contentores verdes - há ainda quem despeje nos ecopontos coisas tão extraordinárias como animais mortos e explosivos.

O barulho na linha é ensurdecedor e as duas dezenas de pessoas que ali trabalham usam protecção nos ouvidos, obrigatória e que impede qualquer troca de palavras. Alguns preferem ouvir música e colocam auscultadores por baixo dos protectores. Nada disso interfere na minúcia das triagens manuais: olhos de lince para uma última carica ou pedaço de cerâmica que tenha escapado. Não admira, mas arrepia: os peritos mais temerários usam os dedos sem luvas como pinças finas para catar os restos indesejáveis que podem fazer perder clientes mais exigentes.

No final, o casco «conforme» - assim se chama tecnicamente - estaciona em montanhas que esperam no exterior o transporte para as vidreiras que farão a fusão e a reciclagem propriamente dita. O vidro tem um ciclo fechado porque uma garrafa é sempre transformada noutra garrafa: cada uma incorpora 99% de matéria reciclada sem perda de qualidade. O ponto de fusão do vidro reciclado é mais baixo do que o da matéria-prima, o que permite poluir menos a atmosfera.

Em que se transforma o plástico?

Cinco garrafas de plástico transparente (PET) recicladas dão origem a «polyester» suficiente para fazer uma «t-shirt» de tamanho XL, dez chegam para um par de calças e com 25 pode fazer-se uma camisola de malha polar. Este plástico é o único que pode ser reciclado no fabrico de embalagens que venham a estar em contacto directo com os alimentos.

O plástico reciclado tem tanta qualidade como a matéria-prima, mas «é o material relativamente ao qual há mais mitos e preconceitos a vencer», diz João Letras, da Sociedade Ponto Verde (SPV). No entanto, vivemos rodeados de peças fabricadas a partir de plástico reciclado sem nos apercebermos. Ele está em tampos de cadeiras que são posteriormente forrados, bancos de jardim, tubos de rega, garrafões de lixívia, sacos de plástico, peças para automóveis… Nesta indústria, devido ao seu peso reduzido, o uso de plástico permite baixar o consumo de combustível em 4%.

A Sirplaste é um reciclador de plástico estabelecido em Leiria desde 1974 que compra plástico a retomadores nacionais e estrangeiros e que fabrica a matéria-prima: umas pastilhas parecidas com lentilhas que serão refundidas pelos fabricantes de peças de plástico reciclado. A linha de preparação é semelhante à dos outros materiais, acrescentando o fabrico da matéria-prima. Desfeitos os fardos, o plástico é descontaminado e passa por uma lavagem antes de ser encaminhado, sempre em passadeiras, para o local onde funde. É depois expelido em forma de esparguete, de imediato cortado em pastilhas.

Algures no início da triagem, na Tratolixo ou nas outras empresas do ramo, e porque o contentor amarelo das embalagens recebe metal e plástico, há que separá-los. A linha da Tratolixo, instalada num dos armazéns do complexo, é curta. Dos dois lados da passadeira rolante há funcionárias munidas de aventais, máscaras e luvas que separam as peças maiores. Já devem estar imunes ao fortíssimo cheiro emanado por estes plásticos e metais que elas separam dos resíduos orgânicos. Enquanto esticam os braços numa dança que apanha aqui e ali o material certo, uma banda magnética atrai e atira para outra zona as peças em aço, e o alumínio, que não é magnético, pode ser separado manualmente ou com correntes de Foucault, um sistema que o identifica e expele para ainda outro recipiente. Todo o aço fragmentado é vendido às siderurgias, que o transformam em lingotes ou chapa.

Papel origina papel e cartão origina cartão

Só o papel galvanizou a empatia do mercado do reciclado e entrou nos consumos normais com a chancela da consciência ambiental. Apesar de poder ser reciclado de cinco a sete vezes até que a fibra quebre definitivamente, saiba o leitor que este exemplar da «Única» que vai colocar no contentor azul - partimos do princípio de que já não tem dúvidas sobre o fim a dar-lhe! - vai ainda ter de passar por um processo de destintagem. Depois entra na cuba e, misturado de novo com água, será pasta de papel. Daqui pode transformar-se em papel de escrita, cartão ou papel higiénico. E neste último caso já não tem reciclagem possível.

 

PAPEL/CARTÃO

A reciclagem consome menos água e energia do que a produção de papel a partir de matéria-prima virgem

Quase todos os produtos de papel/cartão podem incorporar quantidades variáveis de papel reciclado

PLÁSTICO

100 toneladas de plástico reciclado evitam a extracção de uma tonelada de petróleo

30% (em média) da energia que seria necessária para a produção de matéria-prima virgem é o que é necessário para a reciclagem do plástico PET (garrafas de água transparentes)

4% de redução do consumo de combustível é o que se consegue com o uso de peças de plástico em automóveis

A reciclagem de plásticos permite poupar petróleo e gás natural, as duas matérias-primas neles mais utilizadas

VIDRO

Reciclar embalagens de vidro poupa energia - o ponto de fusão é mais baixo - e polui-se menos a atmosfera

1 tonelada de vidro só precisa de 1 tonelada de vidro usado para ser produzida, enquanto usando

as matérias-primas virgens (areia, soda, calcário) são necessárias 1,2 toneladas

 

METAL

1 lata de bebida pode ser infinitamente reciclada sem perda de qualidade

5% da energia necessária na produção de alumínio a partir de matérias-primas minerais

é o que consome o alumínio obtido a partir de embalagens usadas