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Expresso

Mês do Ambiente

«Ainda sonho construir uma cidade debaixo de água»

«A MINHA MÃE passava mais tempo a bordo do ‘Calypso’ do que eu, o meu pai e o meu irmão juntos. Ela era a alma daquele navio».

Em 2007 vai produzir uma série de oito documentários, entre os quais um sobre a Amazónia, 25 anos após lá ter estado com o seu pai. Essa expedição vai ter um sabor especial, ainda por cima fazendo os seus filhos parte da equipa?
«O Regresso à Amazónia» vai dar ao público uma espécie de relatório actualizado sobre a importância da floresta tropical para cada um de nós, habitantes do Planeta. Os meus filhos fazem parte da expedição e ambos partilham o mesmo amor pelo oceano como eu e o meu pai.

Qual foi a coisa mais importante que aprendeu com o seu pai?
Persistência e fé.

E com a sua mãe?
Amor e perdão.

Refere-se à relação que o seu pai manteve com outra mulher enquanto ainda era casado com a sua mãe, e de quem teve dois filhos ilegítimos? Foi por isso que o Jean Michel e o seu pai se zangaram, antes dele morrer, em 1997?
Não houve zanga nenhuma. Fizemos as pazes antes da sua morte, já a minha mãe não era viva há anos. E tenho um meio-irmão e uma meia-irmã.

Nem sempre as relações com o seu pai foram fáceis… Por que sentiu necessidade de escrever o livro «O Meu Pai, o Capitão», em 2004? Para humanizar o mito e desmistificar o homem?
Não. Foi para esclarecer as coisas, para pôr os pontos nos is.

Dá-se com os seus meios-irmãos, ou a vossa relação é tão «boa» como a que mantém com a sua madrasta, Francine?
Não tenho oportunidade de ver a Diane nem o Pierre Yves, porque o acesso a eles me é vedado pela sua mãe, Francine. É triste, mas não é uma escolha minha.

Esteve envolvido numa batalha jurídica com a sua madrasta, a propósito da tutela do «Calypso», ancorado no porto francês de La Rochelle desde 1998, e que o tribunal acabou por atribuir a Francine, em Novembro de 2005. Ainda hoje o «Calypso» continua à espera de restauro, e no «site» da Société Cousteau, presidida pela sua madrasta, são pedidos donativos para o salvar. O que sente face a esta situação?
A equipa que dedicou a vida à minha verdadeira família e ao «Calypso» conseguiu, felizmente, mantê-lo em França. Espero que a Société Cousteau, que agora tem a responsabilidade do navio, honre os desejos do meu pai e da minha mãe, que não queriam que um monumento histórico fosse transformado num nada respeitável circo.

Exactamente o que critica na direcção e gestão da Societé Cousteau por parte da sua madrasta? Tem medo que abra falência?
O meu único comentário sobre a Société Cousteau é que, desde que o meu pai faleceu, em 1997, não produziu nada de significativo e continua a angariar dinheiro público.

Foi por isso que decidiu fundar a Ocean Futures Society, em 1999, sediada em Santa Bárbara, na Califórnia?
Fundei a OFS em honra da memória e filosofia do meu pai.

Por que escolheu os EUA para viver, e não a França, por exemplo?
Aconteceu um pouco por acaso… Vivo cá desde 1968, quando comecei a trabalhar com o meu pai na pós-produção de filmes em Hollywood… E nunca voltei…

Aceitou ser a imagem da Gant, juntamente com os seus filhos Fabien e Céline, em 2007. Como é que isso se coaduna com o seu projecto de vida em prol dos oceanos?
A Gant vai permitir-nos chegar a muita gente a que provavelmente não chegaríamos de outro modo. A nossa mensagem - «Protege o oceano e proteger-te-ás a ti» - vai ser passada a todos os clientes da marca. E como qualquer relação de negócios que eu ou o meu pai mantemos passa por patrocinadores, também a Gant é um patrocínio de alta qualidade.

Como foi crescer a bordo do «Calypso», entre expedições? Faltava à escola?
Faltei de facto a alguns períodos escolares nos anos 50, pois o transporte não era tão fácil como é hoje. Eu estava sempre a «apanhar» o «Calypso» e os meus pais (de avião), e passava aproximadamente quatro meses por ano a bordo. Não havia ninguém para me ensinar, como na escola, mas eu aprendia com 20 pessoas a bordo - sobre ciência, navegação, mecânica, geografia, cultura, etc.

Que memórias guarda desses tempos de vivência no Calypso?
Como mais novo, com o meu irmão já falecido Philippe Cousteau morreu em 1979 num acidente de hidravião, em Lisboa, aos 39 anos, eu fazia todos os trabalhos básicos - pintava o barco, limpava as casas de banho… Isso ensinou-me a respeitar todas as profissões. A minha mãe passava mais tempo no barco do que o meu pai, o meu irmão e eu juntos. Ela era a alma daquele navio.

Lembra-se do que sentiu quando mergulhou pela primeira vez, aos sete anos, com o equipamento inventado pelo seu pai?
Lembro-me de querer falar com o meu irmão debaixo de água e do meu pai me estar sempre a pôr o respirador na boca…

Como é crescer com o apelido Cousteau? Uma responsabilidade? Uma sombra?
O meu pai não era conhecido quando eu era criança, por isso nunca sofri com a fama. «Carregar» o nome «Cousteau» é uma enorme responsabilidade, que eu tento honrar diariamente o melhor que sei.

O que mais admirava no seu pai?
O seu sentido de curiosidade, de aventura e descoberta.

E das suas vitórias políticas, de quais se orgulha mais? Do Prémio de Herói Ambiental que recebeu das mãos de Al Gore, em 1998? De ter conseguido que George W. Bush classificasse as Ilhas do Nordeste do Havai Monumento Marinho Nacional, por causa das baleias de bossa?
Sim, acho que ter sido uma das pessoas que convenceu o Presidente Bush a atribuir essa classificação foi a maior realização da Ocean Futures Society até agora.

Donde lhe surgiu a ideia de criar um ecoturismo nas ilhas Fiji?
O projecto das Fiji foi uma oportunidade para mostrar à gigantesca indústria do turismo que se pode ser amigo do ambiente e ter um negócio economicamente rentável.

Esteve em Lisboa em 1998, por altura da Exposição Mundial sobre os Oceanos, como porta-voz do pavilhão dos EUA. Que memórias guarda da cidade?
Tenho muito boas recordações da Expo 98. Estive lá três dias. Estive em Portugal algumas vezes mas não conheço bem o país. Gosto das pessoas, da comida e do vinho. E trago sempre comigo um «sustainable fish card» do Oceanário de Lisboa, uma régua que se usa para ver se o peixe tem o tamanho legal, sustentado, para ser vendido.

Continua a sonhar construir uma cidade submarina? Já o seu pai, em 1965, tinha criado uma casa submarina onde seis pessoas viveram durante um mês, a cem metros de profundidade.
Sim, ainda sonho construir uma cidade debaixo de água, mas isso terá de ser noutra vida. Por agora, há muito a fazer para preservar a qualidade de vida do ser humano neste planeta.