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Expresso

Mês do Ambiente

Água do mar sem sal

Um empresário português está a inovar ao nível da dessalinização da água dos oceanos. Com o contributo das eólicas vai disponibilizar água mais barata.

Se pensarmos que 97% da água existente no planeta Terra está no mar e que dos restantes 3% compostos de água doce dois terços assumem a forma de calotes polares e glaciares, facilmente se percebe a pequenez do valor que a natureza nos reservou para a satisfação das nossas necessidades mais prementes - nomeadamente para matar a sede.

Mas deste valor disponível - na atmosfera, nos rios e nos lençóis freáticos - só estamos a utilizar 0,4%. Se juntarmos a esta evidência uma outra que se tem traduzido em períodos de seca prolongada, só temos mesmo é que aguçar o engenho e procurar soluções para o problema da falta sistemática de água em muitas regiões do país e, se quisermos pensar a uma escala global, para o drama das pessoas que morrem à sede nos países mais pobres do continente africano.

“Não nos podemos armar em coitadinhos e passar o tempo a queixar-nos de Deus, só temos é que trabalhar”, diz a propósito João Levy, que além de presidente da AEPSA é também líder da Ecoserviços-Gestão de Sistemas Ecológicos.

A sua empresa está neste momento a concluir um sistema inovador a nível mundial no domínio da dessalinização da água do mar. Para já deverá ser só implementado a nível nacional, mas a exportação do modelo não está fora de causa.

Em matéria de dessalinização a tecnologia está mais que dominada. Actualmente para tirar o sal a um metro cúbico de água do mar, que custa um euro, ao comprador, são necessários 3,5Kw/hora de electricidade. Pode parecer muito, mas na década de 70, pela mesma quantidade de água pagava-se 4 euros e gastavam-se 8Kw/hora.

O que João Levy trouxe de novo para esta equação foi associar ao processo de dessalinização a energia produzida pelos aerogeradores, a partir do vento, ou por células fotovoltaicas, com recurso à luz solar. Resultado: por cada m3 de água do mar sem sal o cliente vai pagar apenas 80 cêntimos (o preço actual da água para consumo humano já quase chega 1 euros por m3).

Os clientes potenciais que João Levy está a contactar para a fase de arranque deste seu negócio, feito com recurso a energia renovável, são, para já, os grandes empreendimentos turísticos das costas alentejana e algarvia. A rega de campos de golfe vem à cabeça. Mas não está fora de causa a dessalinização para outro tipo de usos, pois há vários níveis de pureza da água resultante deste processo.

Durante o corrente ano João Levy vai ainda testar algumas soluções, nomeadamente com universidades que pretendam associar-se ao projecto, mas em 2008 espera estar já a fornecer água do mar para consumo industrial ou mesmo doméstico, embora apenas para rega de jardins.

O empresário não revela o valor do investimento mas garante que, como vai poder montar os processos de dessalinização junto dos grandes clientes da área do turismo (uma espécie de fato à medida), dispensa a componente mais pesada desse mesmo investimento que seria a da necessidade de construção de reservatórios para acumulação da matéria-prima transformada.

Considera que Portugal não pode continuar a ignorar o enorme recurso hídrico que é o Atlântico. “Temos ali muito para fazer”, remata o empresário.