Siga-nos

Perfil

Expresso

Automóveis e Ambiente

Verdades e mitos

A poluição automóvel tem duas faces: o dióxido de carbono, que contribui para o efeito de estufa e os gases nocivos que podem causar problemas de saúde pública. Para os combater são precisas estratégias complementares.

O automóvel causa dois tipos de problemas ambientais: contribui para o efeito de estufa, ao emitir dióxido de carbono (CO2), e põe em causa a saúde pública, poluindo a atmosfera com gases nocivos e partículas. Se o primeiro problema é global, o segundo tem incidência especial nas grandes metrópoles, sejam estas dos países desenvolvidos ou do Terceiro Mundo.

As emissões de CO2 são inerentes ao uso de combustíveis à base de carbono. A única diferença entre usar os derivados do petróleo ou os bio-combustíveis (sucedâneos do gasóleo e da gasolina) é que, no caso destes últimos, há alguma compensação do dióxido de carbono emitido, visto resultarem de plantas verdes que, durante a sua vida, ajudaram a fixar carbono. Só o hidrogénio das pilhas de combustível (ver texto "Presente e Futuro") não contribui para o efeito de estufa.

Não há filtros nem sistemas para minimizar estas emissões. Estas, como explica Tiago Farias, docente e investigador do Instituo Superior Técnico, "são, grosso modo, proporcionais ao consumo". Por estranho que possa parecer, os carros actuais emitem, praticamente tanto CO2 como os de há dez anos. Porquê? Porque, o aumento de peso, fruto dos imperativos de segurança, "comeu" a redução de consumo que poderia ter resultado de mecânicas mais aperfeiçoadas.

Quando a Comissão Europeia acordou com os construtores uma redução das emissões, até 2008, para os 130 g/km – meta bem menos ambiciosa que a original – isso significa, em termos práticos, pôr os carros a consumir 5 ou 5,5 l/100 km, consoante sejam a gasóleo ou gasolina. Claro que há o perigo de menor consumo redundar em mais quilómetros percorridos por viatura e, logo, em iguais ou maiores emissões de CO2. Tiago Farias alerta para a necessidade de "uma utilização mais racional do automóvel", o que passa também pela fiscalidade, políticas de tráfego, estacionamento, transportes públicos, etc.

Os gases poluentes, tipificados pelas normas Euro são os óxidos de enxofre, o monóxido de carbono, os hidrocarbonetos não queimados e as partículas. Emitidos em quantidades ínfimas por comparação com o CO2 são, em contrapartida, letais a médio prazo e incómodos no ambiente urbano. Outros poluentes, como os compostos de chumbo e os óxidos de enxofre, estão em vias de desaparecimento, pelo menos nos países desenvolvidos, com o fim da gasolina com chumbo e a forte redução do teor de enxofre do gasóleo (concluída em 2008).

Nos carros a gasolina, o controlo destas emissões começa a estar satisfatoriamente resolvido, graças à utilização dos catalisadores de três vias. Ao contrário do que se passa com o CO2, os carros novos emitem dez vezes menos gases nocivos que há dez anos. O grosso das emissões dá-se no primeiro minuto de funcionamento do motor, enquanto os catalisadores não atingem a temperatura de ideal (400ºC). Daí em diante, mesmo desligando o carro nos engarrafamentos e voltando a ligar, o sistema anti-poluição funciona em pleno. A Norma Euro 5 vai apertar ainda mais a malha, obrigando a baixar as emissões nos primeiros segundos, o que pressupõe catalisadores eficazes a temperaturas ainda mais baixas.

No caso do diesel, as emissões de partículas nos regimes mais altos e de óxidos de azoto nos mais baixos exigem, por um lado filtros e, por outro, recirculação dos gases de escape. No texto de abertura explica-se o que está a ser feito pelos fabricantes na perspectiva do cumprimento da futura Norma Euro 5.

Mas como não há bela sem senão, um alerta recente veio chamar a atenção para um possível efeito perverso dos filtros: as partículas saídas do escape passam a ser de tal forma pequenas que podem penetrar mais facilmente nos pulmões, agravando o risco de doenças.