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Expresso

Automóveis e Ambiente

Amor e ódio

Em meio urbano, os engarrafamentos, além de serem uma perda de tempo, têm um impacto ambiental muito negativo. A mobilidade é um desafio que tem, também, incidências positivas na qualidade do ar nas cidades.

Se perguntarem às pessoas se estão dispostas a prescindir do seu carro a bem do futuro do planeta, as respostas serão negativas ou evasivas. Mas, se na mesma sondagem, se confrontarem os inquiridos com os efeitos da poluição automóvel nas cidades, as reacções serão de condenação frontal.
Se, como diz o José Manuel Viegas, docente e investigador do Instituto Superior Técnico, "tirar o automóvel dos centros urbanos é asfixiá-los", não é menos verdade que a presença dos carros, tal como se faz hoje, está a matar, às vezes literalmente falando, as cidades e seus habitantes. Por outras palavras, tanto os carros como as cidades têm de mudar. Do lado dos carros, conforme se referiu nos textos anteriores, trabalha-se para os tornar menos devoradores de espaço e menos poluentes. Do lado do urbanismo, o grande desafio é conciliar mobilidade urbana e qualidade de vida.

No pára-arranca, os motores trabalham longe do regime ideal. As emissões nocivas são mais sensíveis e, do ponto de vista do efeito de estufa, um engarrafamento é uma catástrofe: se é verdade que, ao "ralenti", um carro consome menos de 1l/100 km, como as distâncias percorridas são mínimas, o CO2 emitido por quilómetro é altíssimo.

Daí que, como explica José Manuel Viegas, tudo o que se possa fazer no sentido de tornar o trânsito mais fluido «beneficia a qualidade do ar na cidade». Isso passa por "hierarquizar as vias", definindo velocidades ideais de circulação desde os 90 ou 100 km/h de uma auto-estrada urbana (Eixo-Norte-Sul), a velocidades de 50 km/h ou inferiores para as ruas mais estreitas e habitadas. "50 km/h em marcha contínua não é o regime ideal de funcionamento do motor mas também não está muito longe dele".

Melhorar a qualidade do ar na Avenida da Liberdade, em Lisboa (onde as normas europeias são frequentemente excedidas), passa por medidas simples de reordenamento do trânsito: 70% dos veículos que atravessam a Baixa têm outros destinos e só lá passam por falta de alternativa. "Uma via fluida entre a Infante Santo, o Rato, o Conde de Redondo, o Bairro das Colónia e a Mouzinho de Albuquerque desviaria a maior parte do trânsito", explica Viegas. "E não estou a falar de uma via rápida no meio da cidade com muitos viadutos e túneis. Apenas das ruas actuais com uma ou outra obra mas, sobretudo, com escoamentos melhorados, o que passa, em boa parte, pela política de estacionamento".