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#fascismo. Um canalha é um canalha. E quem o defende também

Getty Images

Parece que os escuto, em surdina: “Shhhhhiiiiiuuuu, falem mais baixo que ainda nos ouvem. Quanto mais falarmos deles, dos fascistas e dos populistas, mais poder eles ganharão. O melhor é ignorá-los”. Insistem que devemos calar a indignação. Olhar para o lado. Assobiar para o ar. Enfiar a cabeça na areia. Tapar os olhos e esperar que o problema desapareça. Terá alguma vez resultado?

A desumanidade de um fascista não se ignora, combate-se ferozmente. A um fascista não se veste a pele de cordeiro. Não se lhe tapa a suástica para que a sua mensagem passe melhor. Não se lhe dá voz para que possa arregimentar mais uns quantos tolos para a sua vil causa. Não se desculpam ou ignoram os seus crimes. Não o tratamos carinhosamente pelo primeiro nome, tentando normalizá-lo. Ou se está contra ele ou com ele. Não há meio-termo.

Diz a Constituição portuguesa que não são permitidas “organizações que perfilhem a ideologia fascista”. Caberá à Justiça decidir da legalidade de movimentos que defendem, por exemplo, “o fim do multiculturalismo”, mas há uma obrigação moral que devia ser de todos nós: o fascismo não se discute, rejeita-se. Ao predispor-se a manchar as mãos de sangue, dando protagonismo ao líder de um movimento de extrema-direita em nome das audiências, a TVI cobriu-se de vergonha. Bem pode a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vir dizer que nenhuma lei fundamental foi violada, porque este não é um caso de polícia mas de bom senso.

Também não é – ao contrário do que muito se disse e escreveu – um caso de liberdade de expressão. A TVI tem todo o direito de convidar quem quiser, embora, por uma questão de decência, se devesse abster de promover um fascista para tentar conseguir mais uns pontinhos de share. E o convidado (que esteve mais de 12 anos preso) tem todo o direito de dizer o que lhe vai na alma, desde que não o faça, como no passado, para ofender, ameaçar ou perseguir alguém. Mesmo que tenhamos liberdade de expressão – um princípio que um fascista não hesitaria em tirar-nos – não quer dizer que todos mereçamos um palco de grande audiência. Que se dê esse poder a quem afronta os valores humanos mais elementares não tem defesa possível.

Termos tolerância zero em relação aos populismos não significa, porém, que nos devamos conformar com a descrença de grandes franjas da sociedade no atual sistema político. Foi precisamente esse fenómeno que abriu caminho a Trump, a Bolsonaro e à ascensão da extrema-direita em muitos países europeus. É difícil tomar boas decisões quando se está em pânico e a crise da democracia tem conduzido, na maioria dos casos, a políticos ainda piores do que aqueles que tínhamos.

Urge, por isso, regenerar verdadeiramente a democracia, dispensando pensos rápidos, para que ela não entre em falência sistémica. Se aqueles que hoje têm responsabilidades de governação nada fizerem para se redimirem dos pecados de décadas, outros apressar-se-ão a dar a machadada final, abrindo caminho a desventurados que hoje gritam “basta!” Não, Portugal não precisa de um novo Salazar. E muito menos precisa de mais ódio, mais intolerância e mais ignorância, esse terreno fértil dos populistas. O que o país precisa é de políticos melhores. Para nos livrar de todos os males.