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Os jornais não publicaram em primeira página “imagens de falos” e “não foi considerado censura”: Serralves defende-se

JOSÉ COELHO/LUSA

A presidente da Fundação Serralves afirma que não houve censura ou ingerência da administração na exposição de Robert Mapplethorpe e que todas as obras expostas e excluídas foram selecionadas por João Ribas. Ana Pinho garante que soube da demissão do diretor artístico por SMS (primeiro) e por email. E Pacheco Pereira, membro não executivo, saiu em seu apoio: “Nunca vi ninguém na administração defender melhor os interesses de Serralves do que ela”

Ana Pinho garante que o conselho de administração da Fundação de Serralves não interferiu nem mandou retirar qualquer obra da exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures”, afirmando que a escolha das 159 fotografias expostas e das 20 retiradas da mostra são da exclusiva responsabilidade do curador João Ribas.

“As obras retiradas estão aqui (em depósito), o seu transporte, molduras e seguro foram pagos, tal como as expostas”, afiançou Ana Pinho, esta quarta-feira, em conferência de imprensa, no Porto. A presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves reitera que não houve qualquer tentativa de censura ou ingerência nas fotografias escolhidas, lamentando que a imagem e prestígio de um dos mais reputados museus europeus, “dos poucos portugueses reconhecidos internacionalmente”, seja posta em causa.

“Em Serralves não há, nunca houve, sob a nossa responsabilidade, censura”, diz. Ana Pinho avisa que as afirmações que se sucederam ao pedido de demissão do diretor artístico “são falsas” e que não haverá “complacência com a falta de verdade” ou fuga às responsabilidades.

josé coelho/lusa

Cinco dias após a demissão de João Ribas, a administradora da instituição assegura que até ao momento não houve qualquer contacto pessoal por parte de diretor artístico contratado há oito meses, tendo revelado que o também curador da exposição do fotógrafo norte-americano anunciou o pedido de demissão “primeiro por SMS, e a seguir por email”. A líder de Serralves recusou-se, contudo, a divulgar o teor da justificação do pedido de demissão.

Isabel Pires de Lima, vice-presidente do CA de Serralves, também presente no encontro com os jornalistas, alegou questões de natureza contratual e jurídica para recusar a divulgação dos termos do “da demissão unilateral” de Ribas.

Tal como na seleção das obras do acervo no olho do furacão, Ana Pinho remeteu ainda para o curador do Museu de Arte Contemporânea a decisão de que parte das obras “mais sensíveis” seriam expostas em salas reservadas, “tal como já aconteceu com exposições anteriores em Serralves e noutros museus de todo o mundo”.

A administração de Serralves “estranha” que o diretor artístico não tenha manifestado qualquer constrangimento em relação o contexto da exposição na visita pré-inaugural para jornalistas, até porque, diz, foi o próprio curador “que propôs um espaço reservado para algumas obras”. Razão pela qual a administração alega não perceber o que quis dizer João Ribas quando anunciou ao jornal 'Público', no dia seguinte, que não tinha condições “para continuar à frente da instituição”.

A criação de um núcleo reservado à mostra de fotografias de cariz sexual explícito foi justificado por Ana Pinho pelo facto de o museu receber milhares de crianças de escolas, sublinhando que cabe aos seus responsáveis legais decidir se os menores devem ou não visitar as obras mais sensíveis.

A alteração do texto na sinalética do espaço circunscrito, outro dos focos da polémica, foi “feita por similitude com a legislação sobre espetáculos”, corrigida posteriormente face ao “vazio legal sobre a matéria”, supostamente após a administração ter constatado que não existe interdição por parte da Inspeção-Geral das Artes em relação a mostras de arte.

“Foi o próprio diretor do museu que propôs que o espaço reservado tivesse um aviso à entrada sobre o seu conteúdo específico”, diz Ana Pinho, embora admita que formulação do mesmo não fosse da sua autoria. Em vez da proibição inicial a menores de 18 anos, neste momento consta à entrada das duas salas com fotografias de sexo oral e anal, imagens de masturbação e sadomasoquismo, a advertência que o acesso é reservado “a maiores de 18 anos e a menores autorizados pelos respetivos responsáveis legais”.

Pacheco Pereira refuta censura

Pacheco Pereira, membro não executivo da administração de Serralves, foi efusivo na defesa de Ana Pinho e perentório a refutar qualquer ato de censura, questão à qual, lembrou, é particularmente “sensível” por ter sido alvo de dois processos na PIDE e ter visto dois dos seus livros proibidos.

“Nunca vi ninguém na administração defender melhor os interesses de Serralves do que ela (Ana Pinho)”, afirmou o historiador, que fez questão de mencionar que Serralves se encontra atualmente numa das melhores situações de sempre, com exposições simultâneas de artistas como Aniish Kapoor, Mapplethorpe e Jeff Konns.

Tal como a presidente do CA, Pacheco Pereira também invocou responsabilidades civis da instituição para restringir imagens mais chocantes a menores, sob pena de Serralves vir a ser responsabilizada por pais ou professores. E referiu que nem as televisões ou jornais publicaram, e bem, em primeira página “imagens de falos ou de torsos nus” e a opção editorial “não foi considerada censura”.

Excluídas flores, folhas e falos

Afinal, o que escondem as 20 obras ‘malditas’? Após os dias da ira sobre as obras proibidas de Mapplethorpe, a administração de Serralves acabou por revelar, esta quarta-feira, o acervo excluído, entre os qual contam flores (Orchidis, 1983, e Calla Lily, 1987), folhas (Leaf, 1987), um marinheiro a fazer a continência (Milton Moore, 1981), dois meninos (Sam and Max Sullican, 1981), imagens de nus femininos e masculinos, em poses atléticas e três de pénis eretos.

Ana Pinho conclui que, tal como podem ver os visitantes, a exposição “Robert Mapplethorpe: Pictures” “está assinada pelo seu curador”.

O Expresso tentou falar com João Ribas para recolher o seu depoimento. O diretor artístico demissionário atendeu a chamada telefónica, pediu para ligarmos “dois minutos” depois, mas não mais atendeu o telefone.