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Os gerentes de supermercados detidos na Venezuela por especulação de preços foram libertados esta terça-feira à noite

Miguel Gutiérrez

Os gerentes de supermercados detidos na Venezuela por especulação de preços foram libertados esta terça-feira à noite

Marta Caires

Jornalista

Os 34 gerentes de supermercados detidos na Venezuela por especulação de preços foram libertados esta terça-feira à noite. Antes de deixar as esquadras de Los Teques e de Caracas, onde estiveram presos vários dias, foram advertidos de que não podiam prestar declarações públicas. Na Venezuela, acredita-se que as pressões das autoridades portuguesas e o encontro do ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva com o ministro das relações exteriores venezuelano foram decisivas neste caso.

Detidos nas lojas — a grande maioria trabalhava para a cadeia de supermercados Central Madeirense (empresa fundada por emigrantes madeirenses na Venezuela) —, foram levados depois para as esquadras da Guarda Nacional. 31 foram detidos em Caracas; três em Los Teques e a primeira informação foi de que ficariam presos durante pelo menos 45 dias para averiguações. O que deixou as famílias num estado de incerteza, ainda que não existam relatos de qualquer abuso por parte das forças policiais contra estes detidos.

As detenções — entre os gerentes estariam pelos menos 12 portugueses — fizeram soar os alarmes em Lisboa e o ministro dos Negócios Estrangeiros prometeu “firmeza”. Santos Silva reuniu com o homólogo venezuelano em Nova Iorque e menos de 24 horas depois foram libertados num ambiente emotivo e há a informação de que em algumas esquadras estavam muitas pessoas à espera dos presos. Antes de deixar as esquadras foi-lhes dito que teriam de se apresentar periodicamente às autoridades.

A comunidade portuguesa — que muitas vezes se queixa do governo português — sentiu que desta vez não foi assim. Desta vez há mão do governo nesta libertação. A boa notícia chegou esta quarta-feira de madrugada, mas só foi confirmada à tarde pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. A pergunta que agora se coloca é que pressão fez Portugal sobre a Venezuela. Parece certo que Santos Silva foi particularmente duro no encontro de Nova Iorque e exigiu acesso imediato aos cidadãos portugueses.

Miguel Gutierrez/epa

Portugal tem tentado gerir a crise na Venezuela com muita delicadeza para defender os interesses da comunidade. A ideia é que a firmeza só seria usada em casos extremos e a detenção dos 34 gerentes de supermercados foi considerada uma situação de extrema gravidade, pois os interesses dos pequenos e médios comerciantes tinham sido tocados. Além disso, o governo sustentou sempre que os problemas na cadeia de distribuição de alimentos não tinham sido criados pelos emigrantes e luso-descendentes e que, para quem faz negócio, não é possível vender por menos do preço a que compra a mercadoria. Logo não podiam ser acusados de especulação.

O facto de Portugal ser um dos poucos países da União Europeia com os quais a Venezuela tem relações diplomáticas terá pesado na libertação dos gerentes de supermercados. Uma ameaça de mais sanções poderá ter obrigado a este recuo, mas na Venezuela, onde o caso foi pouco noticiado pelos meios de comunicação, há também a ideia de que as declarações de Donald Trump nas Nações Unidas poderão ter tido alguma influência.

Na Madeira, de onde é originária a maioria da comunidade portuguesa na Venezuela, a notícia da libertação dos gerentes de supermercados foi recebida com muita satisfação. Miguel Albuquerque emitiu já uma nota onde louva “a forma empenhada como o Governo da República lidou com a situação”. A verdade é que, segundo adianta a mesma nota da presidência do Governo Regional, o secretário regional da Educação reuniu com José Luís Carneiro para tratar deste caso e de outros “que se prendem com a segurança” da comunidade portuguesa na Venezuela.