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A vida que a chuva levou

A enxurrada matou famílias inteiras. Mas ninguém até hoje sabe dizer o número total de vítimas

eduardo gageiro

Na noite de 25 para 26 de novembro de 1967 mais de 500 pessoas morreram numa enxurrada que arrasou as zonas mais pobres da região de Lisboa e Vale do Tejo. Foi o maior desastre natural em Portugal desde o terramoto de 1755. A ditadura de Salazar quis silenciar a tragédia, que marcou o despertar político de toda uma geração (artigo publicado originalmente na revista E de 11 de novembro de 2017)

Joana Pereira Bastos (texto) Eduardo Gageiro (fotos)

Muitos já dormiam quando a desgraça chegou. Guilhermina, 16 anos, apagara o candeeiro a petróleo pouco tempo antes e adormecera na cama de ferro, com a mão sobre a barriga que guardava o filho a poucos meses de nascer. Era quase meia-noite e faltavam cinco horas para se levantar e caminhar mais de cinco quilómetros até à fábrica da conserveira nacional, onde descascava marmelos a troco de 20 escudos por mês. Nunca chegou a ir trabalhar. Acordou com os gritos do pai e com o barulho de uma torrente de lama a entrar de rompante na pequena barraca de lusalite onde viviam. Em segundos, a água, barrenta e viscosa, chegou-lhe à cintura. Depois ao pescoço.

Com a ajuda do pai, subiu para o guarda-vestidos e ergueu-se até ao telhado, graças ao vizinho que, em seu auxílio, partira algumas telhas para a deixar sair. Atrás dela foi a irmã Graça, de 6 anos, e a mãe, que carregava no colo um bebé de seis meses, o último dos oito filhos. Há horas que não parava de chover. Tanto que o pequeno rio da Costa, o estreito braço do Trancão onde todos os dias iam buscar água para se lavarem, transbordara subitamente, engolindo muitas das barracas da zona. A casa onde moravam duas irmãs de Guilhermina era das que ficavam mais próximas do rio. Guilhermina chamava por elas o mais alto que conseguia, mas os apelos perdiam-se no meio de tantos outros.

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